Fazenda traz Esperança

Nos 45 hectares da Fazenda Esperança do Amazonas, a recuperação se apóia num tripé constituído por espiritualidade, trabalho e vida comunitária

O preconceito ficou lá fora. A vida sem qualquer dignidade, também. Oitenta pessoas de diferentes gerações, antes reféns do vício, agora dividem a esperança da vida sem drogas no melhor lugar para reflexão: a zona rural.
Nos 45 hectares da Fazenda Esperança do Amazonas, a recuperação se apóia num tripé constituído por espiritualidade, trabalho e vida comunitária.
A iniciativa desse tipo de trabalho social inspirado na frase do Evangelho “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que o fareis” foi do frei franciscano alemão, Hans Stapel, nos anos de 1980 em Guaratinguetá (SP). A Fazenda Esperança, porém, nasceu do pedido sincero de ajuda de um rapaz que confiou em Nelson, um jovem da paróquia, sua história e recuperação.
Como no início, os jovens pedem misericórdia. Em carta escrita de próprio punho, contam suas histórias de sofrimento e angústia, como requisito para conseguir uma vaga. A lista de espera em Manaus chega a 100 pessoas, 20 a mais que a capacidade do local. Todos são maiores de idade. “Pede-se apenas que estejam dispostos a começar a viver o evangelho”, explica um dos administradores da Fazenda Esperança do Amazonas, Péricles Ribeiro.

Vida Comunitária

No Amazonas, a Fazenda Esperança foi inaugurada em 29 de julho de 2001, inicialmente com 14 jovens. A idéia de trazer o projeto para o Estado foi do bispo de Parintins Dom Gino Malvestio, que faleceu antes de ver o sonho concretizado. O padre Mário Pascoaloto seguiu com a empreitada e, assim que foi ordenado bispo, transferido para Manaus, logrou concretizar a Fazenda Esperança. Então, o ambiente repressor da antiga Febem, que funcionava nesse local, foi transformado em um centro acolhedor de recuperação.
Como numa vila, 80 jovens maiores de idade repartem as cinco casas do local, como se fossem cinco grandes famílias. E assim como nelas, trabalham conjuntamente, seja na padaria, na criação de aves, na jardinagem, horticultura, ou cuidando das ovelhas, porcos e bois do pasto.
Mas o trabalho que começa às 8h da manhã, termina às 16h45, para outras atividades de recreação. A maioria, porém, reserva o fim da tarde para o futebol. As partidas se estendem até 18h porque às 19h, eles participam da missa na Fazenda. É durante a hora do lazer e nos momentos de espiritualidade, lembra um dos jovens em recuperação, que acontece a integração de toda a comunidade.
O rádio e as visitas mensais são o único contato com as notícias da cidade. Péricles explica que a televisão não é permitida, em razão dos programas que induzem à dependência química e ao sexo.

Independência familiar

O tempo mínimo de recuperação na Fazenda Esperança é de um ano. Os jovens e adultos da instituição concordam que a fase mais difícil são os primeiros 90 dias, quando são avaliados sem receber a visita dos familiares. É nesse período que eles iniciam o conhecimento de si, deixando a dependência dos pais.
“Eu vivo um dia por vez”, conta Sued Ribeiro, 20, que acaba de completar um ano na Fazenda e voltou para casa no último domingo,dia 03.

Trabalho dignifica

É no labor diário, que cada pessoa em recuperação volta a viver com responsabilidade, respeitando horários e metas. As atividades, também, são responsáveis pelo sustento da Fazenda.
O que não é consumido aqui, é vendido, garantindo recursos para a manutenção do projeto. Os biscoitos de trigo, vendidos em pacotes por familiares e amigos voluntários da Fazenda Esperança, garantem a renda principal.
Para aumentar a produção, por exemplo, em convênio com a Suframa, uma moderna padaria foi inaugurada no fim do ano passado, com novos equipamentos. A Coca-Cola repassa verba à instituição a partir da lavagem dos retornáveis, feita pelos moradores da Fazenda.
A venda de vasos com plantas e frutos, como laranja, também, é responsável pela auto-sustentação do projeto. Mesmo assim, a verba gerada por essas atividades não é capaz de cobrir todos os gastos da instituição, principalmente, com alimentação.
Por isso, Péricles lembra que as doações são muito bem-vindas: “É só ligar que vamos buscar”.
A sede da arquidiocese de Manaus, na Avenida Joaquim Nabuco – Centro, também recebe as doações que são levadas à Fazenda Esperança às sextas-feiras.

Experiência histórica

O mês de maio foi inesquecível para os “recuperandos” da Fazenda Esperança. Eles fizeram parte de um evento histórico no Brasil, e experimentaram um convívio intercultural e lingüístico, no encontro com o pontífice em Guaratinguetá. De volta a Manaus, no dia 21, os amazonenses participantes trouxeram lembranças de dias inesquecíveis.
Para “Mazinho”, apelido de Jacimar Barros, 38, a experiência teve um significado ainda mais especial, que ele classificou como destino. “Eu não imaginava que exatamente no ano em que faço parte da Fazenda Esperança, o papa vem ao Brasil”, declara. Ele conta que aproveitou o tempo das manhãs, descendo a Serra da Mantiqueira para refletir sobre si mesmo.
“Meus primeiros novos amigos foram os cozinheiros”, brinca, explicando que, como acordava às 4 da manhã, era sempre o primeiro da fila do café da manhã.
Além da “boa energia” da presença do Papa, o contato com outros costumes e culturas foram marcantes para Marcelo Sodré, 26 e Wellington Pantoja, 23, há 1 ano e seis meses, respectivamente na Fazenda Esperança do Amazonas.
“Havia muita integração principalmente durante as refeições”, lembra Wellington. “Não sabia uma palavra de alemão, mas me comunicava com todos”, acrescenta Marcelo.

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