Amazonas dos futuros desdentados

Saúde bucal é qualidade de vida segundo a OMS. Mas como se pode exigir isso num Estado gigantesco onde a quase totalidade da população interiorana nem possui atendimento médico que lhe garanta dignidade?

Apesar de viver na cidade, Daniel (nome fictício para o menino da foto) nunca foi ao dentista e daqui a algum tempo, as possibilidades de encontrar um emprego bom irão diminuir, com o agravamento da situação de pobreza em que vive.

A saúde dos dentes é um dos critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) para medir a qualidade de vida de uma população. Mas no Amazonas, como o REPÓRTER vêm mostrando desde a primeira edição, nas matérias especiais do jornalista Castelo Branco, grande parte da população sofre de todo tipo de doença porque não possui o mínimo de atendimento médico que lhe garanta dignidade.

É nesse contexto de ausência do poder público que muitos meninos e meninas, a exemplo de Daniel, se encontram, sem qualquer qualidade de vida.

O Programa Brasil Sorridente do governo federal, criado em 2002, agora começa a gerar algum resultado na capital do Amazonas. No interior, entretanto, mesmo nas cidades maiores, como Coari, o atendimento odontológico é mínimo.

Enquanto a OMS preconiza um dentista para cada 1,5 mil habitantes, na terra da banana, de acordo com dados atualizados do Conselho Regional de Odontologia do Amazonas (CRO-AM), existe um profissional para quase 7 mil habitantes. Em Alvarães, apenas um dentista cuida dos 14.776 moradores.

“Em Maués, devido à urgência, o prefeito pensa contratar um prático (estudante de odontologia) para atender a população”, lembra o presidente do CRO-AM, Heládio Gomes.

Por outro lado, Manaus e outras cidades onde é grande a presença do exército, há profissionais além do estabelecido pela OMS. Aqui, existe um dentista para 1.256 habitantes e São Gabriel da Cachoeira não fica muito atrás, com um para cada 1.340 pessoas.

No último relatório do Ministério da Saúde (MS), intitulado Condições de Saúde Bucal da População Brasileira (2002 -2003), é mostrado que as regiões Norte e Nordeste possuem as médias mais altas de dentes cariados – principal problema entre crianças e adolescentes. Nas mesmas regiões, os adolescentes vencem adultos e idosos no uso de próteses dentárias e é onde há mais necessidade de próteses totais. O Norte é campeão em número de pessoas que nunca foram ao dentista (56% da população).

Desigualdade na distribuição de dentistas

Há algum tempo, o governo federal vem tentando implantar a municipalização plena da saúde, que engloba os atendimentos básicos, de urgência e emergência. Por enquanto, poucos municípios querem essa responsabilidade. Em Manaus, a prefeitura administra todo o atendimento básico nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

O nível básico em odontologia garante restaurações, extrações dentárias e periodontia (tratamento da gengiva) básica. Mas a distribuição dos profissionais de saúde bucal nas UBS com tratamento odontológico, hoje, ajuda na manutenção da desigualdade social, no que diz respeito aos dentes.

A rede pública municipal de saúde possui 321 dentistas, porém são as zonas mais abastadas que possuem número maior desses profissionais. Para se ter uma idéia, enquanto toda a zona norte dispõe de apenas 9 UBS com um total de 65 dentistas, a sul possui 18 UBS e 91 dentistas.

A sugestão de Heládio Gomes a ser apresentada durante reunião da Comissão Nacional de Valorização da Odontologia é que a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) use as entidades de classe como consultores quanto à melhoria dos serviços à população.

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