Entrevista — Professor diz que soja não é bem-vinda na Amazônia

O governo brasileiro decidiu acelerar os prazos para a incorporação obrigatória de biocombustiveis à gasolina e ao óleo combustível, medida que vai favorecer a produção de soja, a oleaginosa que menos rende e a mais prejudicial para o meio ambiente. Essa tendência preocupa o professor José de Castro Correia, Dr. em Planejamento de sistema Energéticos do Curso de Energia Elétrica da Ufam que, em entrevista ao REPÓRTER declarou que a soja não serve para a “inclusão sociale que a sua expansão pode” agravar o desmatamento da Amazônia. Acompanhe a entrevista:

Castelo Branco

REPÓRTER – Professor, o senhor tem uma experiência de cerca de 10 anos com óleos vegetais de oleaginosas nativas da Amazônia, inclusive com uso em motores de ciclo diesel. O biodiesel tem futuro como substituto do diesel de petróleo?

Professor Castro – O futuro do biodiesel como substituto do petróleo, especialmente em grande escala, é incerto. Isso porque a demanda por alimentos em todo o mundo, especialmente na China e Índia, países com grande contingente populacional e que crescem a taxas próximas a 10%, tem crescido significativamente em função da melhoria do seu poder aquisitivo. Portanto, como a soja é um alimento (alimento humano e ração animal), o biodiesel irá concorrer, certamente, com o setor de alimentos, além de sofrer pressão por áreas destinadas a outras culturas alimentícias. Aí reside, portanto, a tentação de inclusão das terras da Amazônia para a produção de soja.

REPÓRTER – E quanto às vantagens relativas a outras culturas oleaginosas e gorduras para a produção do biodiesel, são muito significativas?

PC – Em primeiro lugar é preciso ter em mente que se trata de uma comoditie cuja indústria é muito forte financeira e politicamente, e está preparada para o aumento de produção em curto prazo. Entretanto, não há garantias de que o aumento dessa produção seja canalizado para a indústria do biodiesel. Vai depender de outros mercados. A principal vantagem reside, portanto, na rápida resposta ao aumento da demanda.

REPÓRTER – Em se tratando, agora, de geração de emprego, é significativo?

PC – Toda a cadeia produtiva da soja (do cultivo da semente até a produção do óleo) é altamente mecanizada e automatizada. Além disso, a produção de sementes se concentra em grandes latifúndios. Ou seja, o biodiesel a partir da soja não cumprirá com o objetivo de inclusão social, principal mote oficial para incentivo a sua produção, pois é pouco dependente de mão-de-obra.

REPÓRTER – Por que, então, o biodiesel de soja tem sido tão propalado, especialmente pelo setor sojeiro?

PC – Sabe-se que as esmagadoras de soja têm uma significativa margem de ociosidade, que poderá ser ocupada, justamente, pelo aumento na produção do óleo destinado ao biodiesel. Embora, vale lembrar, outros setores, especialmente de alimentos, poderão concorrer com demanda por esse óleo. Portanto, trata-se, fundamentalmente, de interesse econômico de um setor altamente organizado e eficiente.

REPÓRTER – Na sua opinião, a soja na Amazônia é um risco?

PC – Do ponto de vista ambiental, o cultivo da soja implica, entre outras questões, em grandes emissões de carbono devido ao combustível consumido pelas máquinas agrícolas; na contaminação do solo e mananciais aqüíferos por defensivos agrícolas (herbicidas e inseticidas); na degradação do solo pela mecanização; na derrubada da floresta, cujos serviços ambientais já identificados (equilíbrio do clima a nível mundial, regime hidrológico de outras regiões do país) são inestimáveis; e em grande perda de biodiversidade, cujo valor econômico ainda se desconhece.

REPÓRTER – Qual o impacto sob o ponto de vista social e econômico?

PC – Do ponto de vista social, há grandes chances de deslocamentos das populações locais para dar lugar à soja, como já ocorre com a pecuária, criando tensões e injustiças sociais já suficientemente conhecidas. Já do ponto de vista econômico, as populações locais estarão excluídas, face à mecanização e automação, que dispensam mão-de-obra.

REPÓRTER –Resumindo.

PC – Resumindo, a soja é muito mal vinda à Amazônia, pois os malefícios decorrentes em muito superarão os benefícios socioambientais.

REPÓRTER – E quanto às oleaginosas nativas da região, é possível se estabelecer um programa de substituição do diesel por biodiesel, especialmente no sentido de se resolver o problema do desabastecimento de energia do interior, notadamente das comunidades isoladas (ou abandonadas como o senhor sempre se refere)?

PC – Não, não é possível. A variedade de espécies oleaginosas da Amazônia supera uma centena, a maioria já estudada e conhecida, do ponto de vista físico-químico, há mais de 100 anos. Entretanto, pouco ou quase nada se sabe sobre a sua ecologia, de modo que o cultivo racional dessas espécies, e, portanto o aumento da produção e a diminuição de custos, ainda são praticamente inviáveis. Logo, não se pode esperar a substituição do diesel em grande escala pelo biodiesel baseado nas espécies nativas. Estas se encontram dispersas em grandes áreas de floresta, com raras concentrações; de modo que o volume de coleta se torna pouco significativo, inviável para permitir o deslocamento do diesel de petróleo por biodiesel. Repito, em grande escala.

REPÓRTER – E em pequena escala?

PC – Em pequena escala pode-se pensar em substituir diesel por biodiesel, notadamente no caso dos óleos que ainda não têm bom valor de mercado para emprego em outros fins mais importantes economicamente, especialmente pela indústria de cosméticos e fitoterápicos.

REPÓRTER – Pode-se esperar que o biodiesel se torne econômica e socialmente importante para os povos da Amazônia?

PC – Em escala significativa, o biodiesel na Amazônia deverá ser pensado a médio e longo prazo, pois sua inserção no mercado depende do custo de produção, que por sua vez só será competitivo, do ponto de vista econômico, a partir do cultivo racional, que depende de pesquisas, as quais normalmente levam anos (às vezes décadas) para o domínio das espécies.

REPÓRTER – Quer dizer que a produção de biodiesel na Amazônia é mais uma questão agronômica do que propriamente de tecnologia para sua obtenção?

PC – Exatamente. A obtenção de biodiesel pela via metílica (com uso de metanol – álcool obtido de petróleo) já está suficientemente dominada. A obtenção pela via etílica (com uso de etanol – álcool obtido de plantas como a cana-de-açúcar e mandioca, entre outras) está em fase final de domínio, especialmente quanto à taxa de conversão do óleo vegetal em biodiesel.

REPÓRTER – E quanto às questões socioambientais e econômicas envolvidas na produção de biodiesel a partir de oleaginosas nativas da Amazônia?

PC – O biodiesel obtido a partir das oleaginosas nativas da Amazônia é altamente demandador de mão-de-obra, pois se trata de espécies perenes, impossíveis de terem seu cultivo e coleta mecanizados, além de demandar o uso de mão-de-obra em outras fases da cadeia produtiva. Vale lembrar que a produção do álcool empregado na reação que resulta no biodiesel, emprega significativo contingente de mão-de-obra, principalmente se for obtido através da agricultura orgânica e familiar. Do ponto de vista ambiental, o nosso biodiesel é imbatível. Ao gerar alternativa de renda, contribui para a diminuição da pressão pela derrubada da floresta para uso do solo em atividades agrícolas – normalmente pouco rentáveis, itinerantes e altamente degradadoras do ambiente. Ou seja, contribuirá para a manutenção da floresta de pé e seus serviços ambientais.

REPÓRTER – Então o biodiesel obtido a partir de espécies nativas da região poderá ter, futuramente, importante papel na vida do homem do interior, notadamente do ribeirinho, hoje praticamente sem alternativa de renda?

PC – Não tenha dúvida. Se substituíssemos apenas dois por cento do combustível utilizado pela CEAM e Manaus Energia por biodiesel estaríamos criando 20 mil empregos diretos no campo.

REPÓRTER – O que falta, então, para o biodiesel deslanchar na região?

PC -Principalmente pesquisas que resultem no cultivo racional de nossas espécies, onde grande parte são muito superiores às culturas já domesticadas, no que se refere à qualidade do biodiesel produzido. Volto a dizer, nosso biodiesel deve ser pensado a médio e longo prazo. Precisamos ter nossos pacotes tecnológicos na prateleira e, desse modo, estarmos aptos a produzir biodiesel e gerar emprego e renda para o homem do interior.

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