O homem invisível

No 28 de Agosto, o homem entrou mas não passou da recepção. Novamente não foi atendido com o argumento de que o pronto-socorro não cuida de morador de rua porque eles vão ocupar leitos de pessoas produtivas.

Na última quarta-feira, 02, duas donas-de-casa humildes e pacientes percorreram praticamente todas as unidades de saúde da rede pública, numa verdadeira peregrinação,em busca de atendimento para José Rodrigues Cavalcante, 43. Suspeito de tuberculose, as duas humildes senhoras passaram pelos postos de saúde, Serviço de Pronto Atendimento (SPA) e Prontos-Socorros.

Talvez por se tratar de pessoa pobre, sem status social, político ou econômico, o paciente não foi atendido em nenhuma das unidades de saúde procuradas. Em todas elas, o senhor de estatura média, muito magro e abatido, não passou da porta de entrada.

Ele foi encontrado pelas donas-de-casa, que não quiseram se identificar, perambulando pelas ruas do bairro Alvorada, zona centro-oeste. “Ele estava passando muito mal e nós o levamos para o SPA do bairro. Lá, ele não foi atendido e o transferiram para o 28 de Agosto”, conta uma delas.

No 28 de agosto, finalmente, o enfraquecido e raquítico José Rodrigues Cavalcante entrou. Entrou mas não passou da recepção. Pior: num tom de insuportável discriminação, o homem tuberculoso foi obrigado a ouvir que não seria atendido porque o pronto-socorro não cuida de morador de rua.

E mais: porque eles – os moradores de rua – vão ocupar leitos de pessoas produtivas.

“Não podemos ficar com ele. Vamos mandá-lo de volta para o SPA do Alvorada. Leve-o para o lado de fora para esperar a ambulância”, orientou o técnico. E assim foi feito. José Rodrigues, que no passado foi motorista de ônibus, ficou sentado no chão, aguardando por um gesto de misericórdia, mesmo que fosse aquele que nas arenas de Roma era dado quando o monarca indicava com o dedo polegar voltado para baixo.

“Estou revoltada. Nunca pensei que uma pessoa, um ser humano, fosse tratado com tanto desprezo. Ele é morador de rua, mas é um ser humano”, desabafaram indignadas as donas-de-casa, vencidas pela intolerância, pelo preconceito, pela falta de sentimento humanitário e de preparo dos entes que são colocados para fazer saúde pública no Estado.

População de rua não pára de crescer

Em algumas áreas de Manaus é praticamente impossível para o cidadão caminhar ou mesmo circular de automóvel sem que seja abordado por um exército de pedintes, flanelinhas, limpadores de pára-brisa e vendedores de bugigangas. O crescimento desenfreado da população de rua desafia administradores públicos e órgãos de segurança.

Essa realidade está presente na vida da cidade e no dia-a-dia da população. Muita gente se sente incomodada com as abordagens cada vez mais ousadas de meninos pedindo para limpar pára-brisas ou homens, mulheres e crianças implorando ajuda para comprar uma passagem de ônibus, um remédio ou um prato de comida.

Por mais que a sociedade em muitos episódios feche os olhos para a população de rua, a verdade é real e dolorida: ela existe, se multiplica e adoece. O administrador público precisa contabilizá-los como cidadãos com direitos à saúde, inclusive. Deixá-los à míngua é mais do que cruel – é segregacionista.

Não se pode usar a justificativa da improdutividade para não atendê-los, pois integrantes de gangues, desocupados e presidiários também o são. E são não só improdutivos e inúteis, mas perigosos e causam medo à população. Os criminosos que cumprem pena, são mantidos com moradia, alimentação e atendimento médico quando necessário. O sentimento de solidariedade das duas donas-de-casa em relação a José Rodrigues poderia ser canalizado para ações concretas, com o intuito de resgatar essa população marginal para uma vida útil e produtiva. É possível encontrar solução para o problema, priorizando investimentos em programas de educação e emprego.

À população resta promover ações de solidariedade concretas; em vez de dar esmolas que só ajudam a manter a dependência e o aumento da população de rua, criar estratégias de oferta de trabalho para absorver esse segmento populacional.

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