Governador perde compostura diante de jornalista

Tentar intimidar jornalistas, acreditando tratar-se de funcionários a seu serviço, é a pior maneira de abafar denúncias

A história do jornalismo amazonense está repleta de exemplos de governantes que acreditam que o papel da imprensa é estar sempre a serviço deles, enaltecendo sua administração e fazendo proselitismo a sua pessoa. Acostumados aos bajuladores de plantão de seus gabinetes, essas autoridades encontram dificuldade quando se deparam com repórteres críticos, tratando com insistência assuntos desagradáveis, que para os homens públicos melhor seria vê-los empurrados para debaixo do tapete.

É o caso do governador Eduardo Braga, que perdeu a compostura diante do jornalista André Alves, do jornal A Crítica, ao ser indagado por que não respondia às denúncias do senador Arthur Neto, de usar os recursos públicos em proveito próprio. Incomodado com a pergunta, que por si só não se cala, Braga partiu para a intimidação, tentando usar a força de seu cargo para calar Alves.

A tática é usual e sempre a mesma. A autoridade, se julgando acima de todos, começa a falar grosso e a cobrar um respeito que, se lhe devem, deve ser merecido. Se o governador não responde às acusações feitas por um senador da República é porque não encontra argumento para rebatê-las. Se as denúncias o incomodam, deve esclarecê-las, até porque ele administra bens públicos e sua administração vem sofrendo acusações sistemáticas de desvio de recursos.

Tentar intimidar jornalistas, acreditando tratar-se de funcionários a seu serviço, é a pior maneira de abafar denúncias. Governantes precisam entender que nem todos os jornalistas trabalham em assessorias ou agências governamentais e que alguns têm coragem de perguntar aquilo que os incomoda. O papel da imprensa é esclarecer os fatos, mesmo que sejam contrários a quaisquer autoridades públicas.

Contra governadores, denúncias sérias como as feitas pelo senador Arthur Neto é imprescindível que sejam respondidas e esclarecidas. Senão, fica o peso da dúvida e tal situação depõe contra a autoridade e passa para a sociedade a suspeita de algo grave, de roubalheira mesmo.

O governador tem a obrigação, não apenas de responder às denúncias de Arthur como também de esclarecê-las. Se persistir na defensiva, evitando o assunto, sua atitude parecerá uma confissão.

Falta preparo para conviver com a liberdade de expressão

“O relacionamento entre as autoridades públicas e a imprensa deve ficar no nível institucional e nunca no pessoal”

O jornalista Gerson Severo Dantas passou por situação semelhante quando o então governador Amazonino Mendes, convivendo às turras com o jornal A Crítica, passou a destratá-lo ao se sentir incomodado com uma pergunta.

Os jornalistas presentes à entrevista coletiva, dada por Amazonino, testemunharam o governador dirigir-se ao jornalista com palavras de baixo calão, que retrucou no mesmo nível.

Hoje, alguns anos depois, Gerson Severo diz que as autoridades locais não estão preparadas para conviver com a liberdade de expressão e de opinião. “O relacionamento entre as autoridades públicas e a imprensa deve ficar no nível institucional e nunca no pessoal”, comenta o jornalista. Segundo Severo, as autoridades precisam aprender a conviver com opiniões contrárias às deles.

Como exemplo de civilidade de autoridades públicas, o jornalista cita o presidente Lula, que é criticado mesmo nos lugares onde é convidado a comparecer e nunca perde a compostura. Ele cita também o presidente norte-americano George W. Bush, que “leva porrada de todos os jornalistas” e nem assim parte para a agressão.

O diálogo entre o governador e o jornalista.

André Alves – O senador Arthur o chamou de ladrão. Por que o senhor não responde a essa acusação?

Eduardo Braga – Qual o jornal onde você trabalha?

André Alves – A Crítica.

Eduardo Braga – Não posso responder a alguém que é desequilibrado, que bateu no povo, que quis bater na cara do presidente… Todos esses desequilíbrios dele são em função de que o Lula e eu fomos lançados pelo Sinésio (Campos, deputado estadual do PT) ao Senado. E aí bateu o desequilíbrio, bateu desespero.

André Alves – Por que o senhor não responde diretamente a essas acusações?

Eduardo Braga- Por que meu compromisso é com a população.

André Alves – Certo.

Eduardo Braga – Posso contar um segredo?

André Alves – Pode.

Eduardo Braga – Arthur está agindo assim porque fez uma pesquisa e sabe que eu e o Lula ganharíamos…

André Alves – Certo.

Eduardo Braga – Posso lhe dizer outra coisa?

André Alves – Pode.

Eduardo Braga – Quando você for falar comigo, fale com educação, porque nem o senador tem coragem de falar assim na minha cara.

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