A ausência do estado brasileiro na amazônia – General Augusto Heleno

Sobrevoar pela primeira vez a Amazônia é um espetáculo inesquecível: vislumbra-se um infindável tapete, com inúmeras variações de verde, que só se interrompe quando surge um curso d’água, serpenteando pelo meio da selva. Rios, igarapés e furos parecem, com tantas curvas, escolher o melhor caminho para seguir seu destino. Olhando do alto, chegamos a passar três horas sem identificar qualquer presença do homem, no interior da mata fechada. Vez por outra, surge uma embarcação, deslocando-se, lentamente, no ritmo das águas.

Nossos quartéis, na fronteira amazônica, ocupam vinte e oito clareiras abertas na selva. Abrigam duas companhias (150 militares); vinte e três pelotões (40 a 60 militares em cada um) e três destacamentos (20 a 30 militares). Estão espalhados ao longo dos onze mil quilômetros que nos separam dos nossos sete vizinhos. Para receber os suprimentos pesados, a maioria deles depende dos rios, à margem dos quais foram construídos. O resto chega, quando o tempo e o vento permitem, nas asas da Força Aérea Brasileira, nossa amiga fiel e indispensável.
Ainda que o ser humano pareça quase ausente naquela imensidão de floresta, ao chegarmos aos pelotões especiais de fronteira constatamos uma outra realidade. Ali vivem oficiais, sargentos, cabos e soldados, com suas respectivas famílias. Os oficiais e sargentos vêm de todo o Brasil e abdicam do conforto da cidade para sentir, diariamente, a vibração de defender a soberania e a integridade do nosso território. Dentre eles, uma dentista, um médico, um farmacêutico, uma bióloga, todos prestando o serviço militar alternativo. Os cabos e soldados são nativos e conhecem profundamente a área. No entorno, gravita uma comunidade de civis, muitas vezes indígenas, que cria com o quartel uma relação estreita de amizade e dependência.
Um jovem tenente, de vinte cinco anos, é o comandante da guarnição. Compete-lhe agir como líder, conselheiro, delegado, juiz, procurador, prefeito, professor, mestre de obras, etc. Ele personaliza o Estado Brasileiro, em suas múltiplas facetas. Por outro lado, materializa o desinteresse pela efetiva integração da Amazônia ao resto do país. Simboliza a falta de recursos e de ação do poder central para instalar ali, seus agentes institucionais. Eles dividiriam com as Forças Armadas a responsabilidade de zelar pela lei e pela ordem, reprimir os ilícitos, preservar o meio ambiente, cuidar da saúde e da educação, balizar o progresso.
A opção pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia não pode mais ser adiada, sob pena de vermos esse imenso e riquíssimo patrimônio ser saqueado, além de transformar-se em um paraíso das atividades ilegais. Será essa a melhor forma de preservar a integridade de um território brilhantemente conquistado e mantido por nossos antepassados? Por quanto tempo seguiremos assim?

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