Isabela – Félix Valois

Preso nos anos de chumbo da ditadura militar, Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, só às quartas-feiras podia receber visita de sua filha, então adolescente. O resultado desses encontros foi a publicação de um comovente livro a que o autor deu o significativo título de “Até quarta, Isabela”.

“Até nunca, Isabela”, haveria de ser o epitáfio da criança de cinco anos, brutalmente assassinada em São Paulo.
A tragédia chocou o país e fez brotar em todos os normais um sentimento natural de revolta.Serviu também para expor um dos lados mais sórdidos da chamada grande imprensa que, ávida por um escândalo e cansada dos cartões corporativos, não se pejou de armar um circo em torno de um assunto que, por sua própria natureza, haveria de ser encarado com circunspecta sobriedade.
Convenhamos, porém, que não foi só a atividade jornalística que se mostrou exagerada no episódio. É impressionante como, lá e cá, promotores, advogados e até delegados não conseguem resistir à atração dos holofotes e se deleitam em aparições midiáticas que lhes garantam um minuto de fama.
A investigação em si mesma, a busca da verdade, esses são assuntos de somenos para tais figuras. São meros detalhes, como o gol o era para o Parreira. Importa-lhes sair de uma obscuridade a que o dia-a-dia de suas atividades os relega e não se pejam de pegar carona da dor alheia, contanto que apareçam no vídeo e nas primeiras páginas.
Fabricam-se suspeitos e colhem-se entrevistas de quem “ouviu dizer”. Opina-se e acha-se. E o vulgo, embalado pela onda de irresponsabilidade, já faz até “bolão” para saber quem será apontado como autor do homicídio.
Que coisa deplorável! Frio, recém sepultado o cadáver de Isabela poderia pelo menos despertar nessas mariposas o mínimo de dignidade. É quase impossível porque a essência do inseto não consegue afastar a irresistível atração do generoso clarão do holofote.
Tributo à criança morta meu mais profundo respeito. Ao animal que lhe ceifou a vida há de lhe restar a carga de um remorso indizível, desses que só acometem quem não consegue encontrar beleza na inocência.

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