Entrevista – Dom Luiz Soares Vieira

“Quando não há oposição a democracia perde”

“Discutimos ética na política e não política partidária”, destacou o arcebispo de Manaus e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Luiz Soares Vieira em entrevista ao REPÓRTER para falar do lançamento da primeira edição da cartilha “Eleições 2008”, iniciativa da Igreja Católica para orientar a população às vésperas das eleições municipais. Embora apartidário o arcebispo não se furtou em tecer comentários sobre a nuvem de denúncias que paira sobre o governador Eduardo Braga que segundo ele governa sem que ninguém lhe faça oposição e sobre a atuação do prefeito Serafim Corrêa que está a pouco mais de 200 dias do final de seu mandato”.

Por Joaquina Marinho

REPÓRTER: Combater corrupção, orientar eleitor, fiscalizar o político. Isso é trabalho da igreja?

DOM LUIZ SOARES VIEIRA: Claro que sim. Não estamos falando de política partidária, mas de ética, da vida de cidadãos, do bem-estar das comunidades, enfim, da vida, e, é aí que a Igreja entra na medida que ela vai orientar esse povo a saber escolher o candidato, em tese, certo. Aquele que não chantageou, que não corrompeu, que não se locupletou, que respeitou seus eleitores, e se ele não era o candidato certo, pelo menos, o caminho foi traçado. E, orientar nesse sentido é sim papel da Igreja e dos organismos de defesa da sociedade.

R: Qual o propósito dessa cartilha?
D.L: São 10 mil exemplares de uma cartilha que visa única e exclusivamente orientar e educar a população que vota. Nosso propósito não é orientar em quem votar, mas como votar. Para isso o eleitor precisa ser informado sobre deveres e obrigações do administrador e dos legisladores municipais. Não estamos preocupados com política partidária, mas com a ética na política
e o cidadão.
R: Como seria essa orientação?
D.L: A cartilha tem oito páginas, elaboradas e organizadas pela Coordenação Pastoral da Arquidiocese de Manaus, Cáritas Dioceasanas e Sares. Nelas destacamos a obrigação, que todo cidadão deve ter, em conhecer a realidade de seu bairro, de sua comunidade; que ele deve acompanhar as atividades dos políticos. O cidadão precisa entender que voto não se compra e não se vende, jamais, pois consciência não se negocia. Mas para ter consciência o eleitor precisa estar bem informado e orientado.

R: Didaticamente com o é feito essa orientação?
D.L: A cartilha orienta o cidadão a identificar se ele pode está sendo vítima de compra de votos através de “doação” de cestas básicas, serviços odontológicos, atendimento médico etc. Ele pode denunciar quando observar o uso eleitoreiro da máquina pública e através de fotografias, documentos, testemunhas e filmagens comprovar que o candidato é corrupto e assim tentar livrar a sociedade desse cidadão nocivo não votando nele, mas denunciando.

R: As cartilhas serão distribuídas nas comunidades?
D.L: Vamos distribuí-las nas pastorais, nos movimentos sociais, nos projetos sociais da Igreja e em todas as paróquias de Manaus onde estarão disponíveis para todos os cidadãos eleitores ou não. Num primeiro momento a cartilha será trabalhada junto aos comitês sociais que atualmente são dois, mas se objetiva ampliá-lo para dez e, durante o período de campanha ela será trabalhada na fiscalização.

R:A Igreja também está envolvida no apoio ao Projeto de Lei de iniciativa popular que visa complementar a Lei das Eleições – a 9.840. Como está esse apoio?
D.L: Essa Lei foi criada sob mais de um milhão de assinaturas e visa proibir a candidatura de quem já foi condenado em primeira instância pelo judiciário brasileiro. Nosso apoio foi decidido durante a 46ª Assembléia geral da CNBB na primeira quinzena de abril.

R: O senhor acha que o cidadão se enganou ao votar em Serafim Corrêa que representava a mudança? Hoje muitos acreditam que a mudança foi para pior.
D.L: Não acredito que o cidadão tenha sido enganado ou se enganado. O prefeito Serafim Corrêa tem acertos e erros como todos que já passaram pela prefeitura de Manaus. Na minha opinião ele organizou a máquina pública, mas por outro lado o trânsito, os buracos e a água deixaram a desejar. Ele demorou muito para agir e eu acho que agora não dá mais tempo. Quem mora no centro reclama do trânsito e dos buracos, quem mora na periferia reclama do trânsito, dos buracos e da falta d’água.

R: Manaus já foi melhor ou mais bonita, na sua opinião?
D.L: Eu cheguei aqui em 1992 e sempre achei Manaus bonita, deu uma caidinha. Os turista quando chegam aqui se encantam, mas quem vive aqui nem tanto.

R: Que nota o senhor daria para a administração Serafim Corrêa?
D.L: Eu não me arriscaria dar essa nota. Devo dizer no entanto que o prefeito teve alguns entraves para conseguir trabalhar, por exemplo, a reconstrução do Adolpho Lisboa foi atropelada pelo pessoal do Iphan. A culpa do incêndio foi deles e não do prefeito que vai ter ainda que indenizar aqueles que perderam suas barracas no incêndio. Para atender as exigências do Iphan, o Adolpho Lisboa deveria ser transformado em museu onde o piso certamente deveria se mantido originalmente, mas trata-se de um mercado que funciona, que está vivo.

R: O senhor tem acompanhado as denúncias que surgiram nos últimos meses que colocam em xeque a honestidade do governador Eduardo Braga? São bois em Cruzeiro do Sul, viagens áreas, obras pagas e não construídas, enfim um rosário que desfia suas contas.
D.L: Tenho acompanhado sim e acredito que há denúncias e denuncismo. É bom que as pessoas saibam diferenciar quando isso ocorre. Existe muitos interesses em jogo de pessoas que podem utilizar todas as armas para macular a honra de alguém, no caso, o governador. Mas, é bom também entender que uma denúncia é uma coisa, mas quando passam a ser várias, tem alguma coisa errada e aí as autoridades constituídas desse Estado têm que agir para esclarecer se as denuncias são ou não fundamentadas.

R: O senhor concorda que na Assembléia a oposição ao governo é praticamente nula?
D.L: Concordo. E digo que isso é nocivo à democracia, pois tem que haver fiscalização, embate, discussões sadias para aperfeiçoar e fortalecer o governo e o parlamento. Como um governo pode querer ser absoluto? Não pode. Tem que haver oposição e sabemos aqui ela foi cooptada. Dizer sim para todos os atos do governo só prejudica a população.

R: Em uma solenidade em que estavam presentes, entre outros convidados, o senhor e o governador Eduardo Braga, ele disse que ouvia seus conselhos. O senhor tem aconselhado o governador Eduardo Braga, ultimamente?
D.L: (Risos). Ele e dona Sandra são meus amigos. Ela tem ajudado bastante o nosso trabalho na Fazenda Esperança e em muitos outros projetos da Igreja, ele como eu disse é um amigo. O que não quer dizer que eu fui cooptado ou que não possa ter minha opinião.

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