“Nunca fale com estranhos”

Nas ruas e praças de cidade, o que se tem visto nos últimos dias são pais e mães que se grudam aos filhos com medo que alguém os leve de uma hora para outra

O velho e batido conselho “nunca fale com estranhos” está mais atual do que nunca entre a maioria dos moradores de Manaus. Motivo? Simplesmente medo de que os filhos desapareçam para sempre.
Lamentavelmente, essa quase paranóia é mais do que uma realidade. E como não poderia ser diferente para quem é pai ou mãe, o perigo está em tudo que se mexe próximo dos filhos. É a nova babá, é o cara estranho próximo da escola, é o dono da padaria que é gentil demais com as crianças, é o motorista que passou dirigindo devagar; enfim, tudo é motivo de desconfiança. Afinal, o mal pode estar presente até mesmo em pessoas acima de qualquer suspeita.
Triste realidade, pobre sociedade!
Ao contrário dos bons tempos das duplas de Cosme e Damião, que ninguém se preocupava com a segurança da criança no horário de entretenimento na rua em que morava, hoje, o que mais se vê são pais cada vez mais grudados aos filhos.
Por quê? Medo de seqüestro, rapto, violência e toda sorte de atrocidades e barbáries praticados, inclusive, com o intuito de apropriação de órgãos.
E como tudo é motivo para desconfiança, a exemplo da própria sombra, nem mesmo as lendas urbanas, como a “loura do carro preto” são desprezadas. Assim, os pequenos estão com a segurança redobrada.
Nesse clima, as crianças ouvem todo tipo de conselho e orientação – gostem ou não. Sair de casa sem a companhia dos pais ou sair na rua para brincar, nem pensar.
O pânico tomou conta de todos independentemente de classe social, cor e religião. Todos estão com medo. “Brincar na rua é proibido. Dentro de casa é menos perigoso”, acredita a fonoaudióloga curitibana Margarete Dias, 43 anos.
Em Manaus, há três anos, Margarete é mãe de duas crianças menores de 14 anos e não esconde que mesmo antes de ter os filhos sempre foi medrosa. “Eu só tenho duas mãos para pegá-los. Por isso, só tenho eles dois”, explica.
E nesse compasso, a preocupação de um é comum para todos, mesmo para os mais incautos. A estudante universitária Leny Meireles, 40 anos, figura entre tantos que não confiam em ninguém.
“Pra alguém levar um de meus dois filhos, mesmo que seja para estudar com o colega vizinho, é preciso ter poder de convencimento. De outro modo, terá que usar da força bruta. Em casa, o catecismo é um só: não falar com estranhos, não entrar em carro que não seja o nosso e não abrir a porta pra ninguém quando eu e o pai deles estivermos longe”. “Não saberia viver sem eles. Acho que nenhuma mãe”, completa.

Uma criança é agredida por dia

Dados estatísticos da Delegacia do Menor Vitimizado sugerem que em Manaus pelo menos um caso de maltrato é registrado por dia. Só nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2008, foram registrados 145 casos.
Os casos são os mais escabrosos possíveis e se dão na forma de surra, tortura e castigos violentos. A exploração do trabalho infantil e abuso sexual, geralmente praticado por um adulto, também, fazem parte dessa ignomínia. De acordo com as estatísticas da DEPCA, a faixa etária mais vulnerável aos aliciamentos fica entre 3 e 5 anos de idade.
Os registros indicam, também, que os agressores, na maioria dos casos, estão dentro de casa. Entre os relatados pela assistente social da DEPCA, consta o de um pai que abusava de duas crianças de 9 e 12 anos de idade com a total conivência da mulher, mãe dos menores violentados. Foi através de denúncias que as crianças foram resgatadas e colocadas em abrigos e, posteriormente, adotadas.
Outro caso de uma criança de 3 anos que foi espancada pelo padrasto enquanto tomava banho. “A criança foi internada com hemorragia interna e os braços quebrados.A mãe e o padrasto disseram que ela caiu, mas a polícia descobriu que a menina havia sido violentamente espancada”, lembra Socorro.
Na última terça-feira, 22, um caso chamou a atenção da assistente social. Uma menina de 7 anos estava sendo molestada sexualmente por outras duas crianças, um menino de 9 e outro de 11 anos de idade. “Um absurdo! Mas aconteceu”, lamenta Socorro, que diz entender a preocupação dos pais. “Todo cuidado é pouco, e a única saída é a orientação”, acredita.

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