O Malfazejo (Ed.61) – Ismael Benigno

O carnaval, Isabella, o churrasco e a novela

Brincar de polícia forense no sofá de casa é fácil. É o coraçãozinho de galinha, a maionese de batata. No rodízio frenético do Caso Isabella, a picanha vem agora, que o trabalho da polícia chegou ao fim. Os churrasqueiros de miúdos começam a sumir, e entram os donos dos espetos mais nobres – e raros.
Saem os delegados mal barbeados com seus óculos escuros, os quilômetros de cabos, as centenas de microfones e entram os advogados, com seus ternos escuros, sua barba feita e suas pastas de documentos. Sai o gogó do Datena e entram os juízes, com o manto negro do estado de direito sobre os ombros.
Agora a coisa é com a justiça. É aqui que acaba o barraco da novela das oito e começa o documentário iraniano. Boceje.
Carnaval tem fim. O trio elétrico passou e o axé baiano vai virando a esquina, ecoando longe. A horda dos foliões vai se esvaindo, e o fim desta rua sem saída é o imenso portão da justiça, talhado em madeira de lei, torneado por paredes de granito. Você, opinião pública, vai ficando de fora, porque não há abadá que pague a entrada no mundo das liminares em que agora adentra o corpo de Isabella. Um mundo inóspito para você, amante de pão de alho e do “ê-aê-aôôô”.
Novela também acaba. Marconi Ferraço e Maria Paula foram tirados do ar. Você não gostou, mas precisa ouvir coisas assim: “Os advogados de defesa vão ingressar com uma representação na corregedoria da Polícia Civil, alegando que os indiciados responderam, em seus depoimentos, a perguntas baseadas em laudos que não constavam oficialmente dos autos do inquérito”.

Esta é a picanha, caro folião, prezado comensal, querido noveleiro. Mas, se a lógica estiver certa, você já se encheu de linguicinha, e deve ter acenado com um “não, obrigado” à rainha das carnes. Saiba que é no seu fastil, o fastil da opinião pública, que a história é escrita. Depois de quase um mês de comilança, a frase do parágrafo anterior não lhe disse nada, e é aqui que saem os peritos criminais e o Louro José, é aqui que acaba a computação gráfica que reproduz o quarto de Isabella.

E entra ele, o Latim

É a vez deles, aqueles senhores sóbrios que pouco beliscaram as entradas, aguardando o prato principal. Assumem aqueles que vivem de pinçar a absolvição de seus clientes na fadiga do material de que são feitas as leis. No julgamento do casal mais queijinho assado será servido a você, a faminta opinião pública.
Você, que sabe que, acompanhado do mais reles advogado de porta de cadeia do interior do Tocantins, ninguém, branco ou preto, rico ou pobre, precisa ficar preso no Brasil. Compreenda a justiça, não a divina nem a californiana, mas a justiça brasileira, um emaranhado de mecânicos de Fórmula 1 que se especializou neste Gurgel Carajás cheio de gambiarras que é o Código Penal brasileiro.
Ao casal Nardoni será reservado o direito de aguardar em liberdade o julgamento das dezenas de recursos a que terão direito, ainda que sejam condenados no banquete tribunalesco que certamente ocupará a tevê, os jornais e as conversas dos botecos. Este circo inicial precisa ser ágil, as autoridades policiais precisam mostrar competência, o tempo da tevê é caríssimo e o cliente, você, acabou de sentar à mesa, faminto.
A você, a opinião pública, refestelada de feijão tropeiro, restará o prêmio de consolação de pichar os muros da casa dos Nardoni, que deverão se refugiar – claro, com a autorização da Justiça – no exterior.
Assim foi com muita gente que cometeu crimes brutais como este. Farah Jorge Farah, o médico que matou e esquartejou uma paciente em seu consultório, está em casa. Condenado, mas em casa. Pimenta Neves, que confessou ter matado a namorada pelas costas, está em casa. Condenado, mas em casa.

Ainda que lembremos que os assassinos de João Hélio estão presos, um exercício primário de honestidade intelectual desmontaria a falsa sensação que temos de que por eles foi feito tudo o que podia ser feito.
Não foi. Talvez, naquele caso, a família dos assassinos não tenha tido a coragem e os recursos para recorrer à justiça, que fatalmente já teria os posto em liberdade. Kueginaldo Marinho da Silva, pai de Diego, um dos assassinos de João Hélio, o entregou à polícia, exatamente como disse que faria Antônio Nardoni, pai de Alexandre.
A diferença do Silva pro Nardoni, entre outras mil, é que Seu Kueginaldo, que não é advogado como Seu Antônio, desconhece a justiça brasileira e todas as suas possibilidades e gambiarras.
A diferença está no fato, no simples fato de a família de Diego provavelmente nunca ter comido um bom corte de picanha maturada.

Os 574 príncipes do Amazonas

Histórica fonte de inspiração para políticos amazonenses do naipe de Belarmino e Amazonino, certo Nicolau, o Maquiavel, foi cutucado em sua tumba por Belão, que disse que o verdadeiro príncipe é amado por todos, referindo-se a Mestrinho durante solenidade em que o boto recebeu a medalha Ruy Araújo – uma honraria a que só tiveram direito todos os 574 parentes e amigos mais próximos do querido Belarmino. Maquiavel diz exatamente o inverso: entre ser amado e temido, melhor ser temido. Amazonino bem sabe, e Belão um dia saberá também, que o amor dos súditos é volúvel e depende da satisfação de suas necessidades. Das duas, uma: Ou nossos homens públicos gostam de citar Maquiavel sem conhecê-lo, ou precisam de um curso de interpretação de texto. Pensando bem, das duas, duas.

Analfalins

Num post publicado no Blog do Belão sobre a guerra entre oposição e situação acerca das obras de cartãozinho do consórcio Governo-Pampulha, lê-se o seguinte: “Segundo Nicolau, as respostas que são dadas só não escutam quem é surdo ou quem faz questão de não escutar, ou só não ver quem faz vistas grosas para a questão…”. Vamos começar a pensar na CPI da Gramática. Que tal?

Prata da Casa

Quadros para melhorar a regência e a concordância na ALE não faltam à casa. Lorena Holanda Souza, por exemplo, que, a depender da carga genética, traz o amor à língua portuguesa no sangue, por exemplo, assina frequência no setor.

Charuto a R$1!

É grande a expectativa em Manaus para o que pode ser o evento do ano. Preso novamente pela Polícia Federal nas quebradas da Ponta Negra – ô bairro mal frequentado! – o ex-deputado pode ter seus bens dados de piruada no Bazar do Cordeirinho. Com uma diferença. Cordeiro agora é gente como a gente.

Sistema fora do ar

Vereadores da Câmara Municipal de Manaus convidaram a empresa de tevê e internet Net/Vivax para explicar a má qualidade dos serviços prestados. Em resposta, a empresa pediu que eles teclassem 9 e aguardassem um de seus atendentes. Os vereadores estão ouvindo Pour Elise desde quarta-feira.

Dossiê das ONGs

Projeto da Casa Civil a ser encaminhado ao Congresso até junho endurece o tratamento dado a ONGs estrangeiras que queiram trabalhar na Amazônia. Pelo projeto, os visitantes precisarão da autorização expressa dos ministérios da Defesa e da Justiça. Talvez seja porque o destino que as ONGs dão aos bilhões que recebem do governo não constem do “banco de dados” criado pelo ministério de Dilma Rousseff.

Ctrl+Alt+Del no Sabá Reis

O deputado bipolar superaqueceu novamente e cobrou explicações do governo para as obras da Pampulha. É caso grave, que só se resolve com as visitinhas de Zé Melo.

Enfim, Obama mete o dedo no nariz

Alçado ainda em 2004 ao posto de rising star, a nova estrela do partido Democrata americano, Barack Obama, sem muito esforço e com uma retórica inspiradora, conquistou os corações e mentes dos eleitores americanos.
Seu discurso, de conciliação e livre da questão racial, arrebatou especialmente os jovens, notórios alienados políticos. Mas o que parecia ser enfim o sopro de novidade da política do país de Bush começa a desmoronar dentro do hangar democrata, enquanto Obama comete gafes e grosserias, debatendo-se na areia movediça em que se transformaram as prévias contra Hilary Clinton.
Fica no eleitorado democrata – e nos espectadores ao redor do mundo – a impressão de que o homem que uniria o país em torno de coisas pouco tangíveis como a Esperança falhou antes da prova começar.
Um candidato que não consegue unir seu próprio partido, longe do poder há oito anos e contando com a desaprovação recorde de Bush a seu favor, dificilmente conseguirá unir o país inteiro.
Barack pode até vencer Hilary na reta final, mas chega à disputa com o republicano John McCain com o charme pessoal, um slogan moderninho e com o forte apelo entre os jovens. Como Afif em 89 no Brasil. E só.

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