Ângelus diz à BBC de Londres que Bolsa Floresta é uma farsa

Um velho ditado conhecido de cor e salteado por qualquer cidadão deste imenso Brasil varonil diz mais ou menos assim: “não há mal que não traga um bem”.

Pois muito bem.

Depois de amargar a rejeição de seu requerimento que convidava o senador Arthur Neto (PSDB) a debater na Assembléia Legislativa (Ale) questões, como “a farra aérea do governador”; depois da episódica pane no sistema de som da Câmara Municipal, que seria usado, também, por Arthur para tratar do mesmo tema, o deputado Ângelus Figueira (PV), abriu o verbo, quarta-feira, 7, para uma equipe de seis jornalistas pertencentes nada mais, nada menos do que a BBC de Londres.

No total, foram mais de duas horas de entrevista a repórteres de várias nacionalidades – ucraniana, portuguesa, inglesa, indiana, coreana, japonesa e norte-americana – todos sedentos de informação, principalmente, sobre o projeto Bolsa-Floresta, criado pelo governo do Estado e que contempla famílias instaladas em área de reserva de preservação com salário de R$ 50,00.

As primeiras declarações foram impactantes – um estímulo que faz ferver o sangue de jornalistas circunspectos, mas ansiosos por desvendar questões curiosas, como o Bolsa Floresta, que impressionou o mundo, sobretudo, pela forma como foi contado pelo governador Eduardo Braga e seu ex-secretário do Meio Ambiente, Virgílio Viana, hoje, presidente da ONG.

“A lei é perfeita”, proclamava, com tranqüilidade, Ângelus Figueira, declarando-se favorável ao projeto Bolsa-Floresta.

“Esse belo projeto, infelizmente, esconde uma perversa farsa”.

Aí, o esperado why (por quê) foi incontinenti.

– Why? Antecipa-se o indiano.

– O Bolsa Floresta na sua criação e em declarações do governo diz que o projeto tem como meta atender 60 mil pessoas. Vocês ouviram isso e o mundo ouve isso, responde Figueira.

– Hoje (quarta-feira) eles (referia-se a Virgílio Viana) falaram que são oito mil famílias, arremata o intérprete do vietnamita Hai Le, producer BBC Vietnamese.

– Tudo pra confundir vocês. Oito mil famílias são as que existem dentro das reservas de desenvolvimento sustentável, ou seja, das 7 reservas que estão aquinhoadas pelo projeto. No entanto, na mídia, e aí eu tenho aqui farto material, eles falam em atingir 60 mil, reafirma.

– Então existem sete reservas, indaga o jornalista português, Luiz Cardator, Producer Portuguese Language Service.

– São sete reservas que serão beneficiadas. Aliás, vocês deveriam visitá-las. A reserva do Uatumã, que vocês conhecerão, é a única beneficiada até então, explica.

– Só uma beneficiada, insiste Luiz Cardator.

– Infelizmente. Estão mandando vocês para lá, mas se forem para qualquer uma das outras, como a reserva de Mamirauá, que é a menina dos olhos do governo, vocês não vão encontrar nada. Essa história de R$ 50,00 é humilhante. Preservar é preciso, mas é preciso, também, que haja retorno. Visitem outras reservas e verão que não existe manejo. Mesmo nessa que vocês irão visitar, não existe manejo do jacaré, por exemplo. Se houvesse manejo, haveria retorno financeiro para as pessoas que vivem ali.

– Então o projeto não funciona nas outras reservas, arremata a jornalista ucraniana.

– O projeto não funciona em nenhum reserva. Por isso vocês deveriam visitá-las. E digo mais: eles estão mandando vocês para a reserva do Uatumã porque lá existem 300 famílias que recebem R$ 50,00. Tudo isso é uma tremenda farsa. Para que haja preservação é preciso que as pessoas tenham como viver sob o ponto de vista social e econômico. O mau-caratismo dessa gente é tão grande que a reserva de Mamirauá não tem plano de manejo aprovado.

– Então não existe preservação, continua a ucraniana.

– Existe, porque o homem do interior do Amazonas sempre esteve preocupado com essa questão. Agora, qualquer atividade do homem praticada na reserva que vocês irão visitar é irregular. E há que se convir que com esses R$ 50,00, ninguém vai sobreviver.

– Qual o valor que o senhor defende? Provoca o jornalista inglês.

– Eu falei, no início, que considero o projeto muito positivo, importante, vital, louvável, correto. Só que não passa de uma farsa. Eu fui prefeito de Manacapuru e criei a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil, que é a “Reserva do Piranha”. Lá, cada morador, chefe de família, recebia um salário mínimo. Ou seja, quase 10 vezes mais o valor do Bolsa-Floresta. E mais: todos tinham direito à educação, saúde, e viabilidade econômica. Eu não sou contra o projeto. Sou contra o valor de R$ 50,00, adverte.

Prosamim não construiu um metro de esgoto

Na segunda parte da entrevista com os jornalistas da BBC de Londres, Ângelus Figueira aproveitou para colocar todo o seu repertório de acusações contra o governador Eduardo Braga em dia.

Pra início de conversa, o parlamentar verde elogiou, igualmente, o Programa de Saneamento dos Igarapés de Manaus (Prosamim), mas foi duro ao afirmar que Manaus é uma cidade comparada a um esgoto a céu aberto.

E como não poderia ser diferente, a primeira reação foi um sonoro why.

“Estão fazendo uma obra de US$ 800 milhões e não existe um metro de esgoto. Tudo é jogado no rio. Não há ação séria no sentido de resolver essa questão”, condena.

Nem mesmo completara a explicação, lá vem o vietnamita cheio de curiosidade:

– Que projeto é esse?

A resposta foi em cima da bucha:

– O Prosamim, financiado pelo Banco Mundial (Bid). O projeto, sem dúvida, é dos mais importantes em execução, pois possibilitou que dezenas de pessoas fossem tiradas de áreas extremamente inóspitas, mas não construiu um metro de esgoto. Resultado: toda sorte de água servida além de resíduos fecais serão despejados dentro dos rios, como ocorria quando essas mesmas pessoas moravam nos alagados, condena.

Questões como pagamento de obras “fantasmas”, a suposta “farra aérea”, denunciadas pelo senador Arthur Neto foram temas que mereceram vários minutos de gravação. Nem por isso, nenhum desses assuntos chamou tanto a atenção dos jornalistas quanto a informação de que o governador Eduardo Braga é criador de gado no Estado do Acre.

Como todo bom profissional do jornalismo, que evita compartilhar suas emoções com as fontes, os correspondentes da BBC de Londres mantiveram-se calmos, mas deslancharam sobre Figueira uma saraivada de perguntas sobre o tamanho do plantel, o tempo que explora a agropecuária na região, e se a atividade do governador não tinha, também, relação com o aumento dos índices de queimada na Amazônia.

Ângelus Figueira se limitou a dizer que a criação do governador consta de sua declaração de rendas entregue à Justiça Eleitoral e que o melhor caminho para saberem a respeito de queimadas e do comprometimento dos rios da região seria o Sipam e o Inpa.

Para deixar os repórteres ainda mais boquiabertos, Figueira fez questão de declarar que o órgão de comunicação do governo do Amazonas gasta muito mais em publicidade do que os investimentos do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) no meio ambiente. “O orçamento do governo para mídia é de R$ 45 milhões mais R$ 10 milhões em aporte. O do Ipaam é somente R$ 49 milhões”, afirma.

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