Fim da mamata para ex-flanelinhas

Os mais esperançosos ainda sonhavam com a possibilidade de serem abrigados em uma das casas do Prosamim ou até mesmo em uma das quadras dos imensos GMs, centros sociais, Clube de Mães ou no Sambódromo

Na última sexta-feira, 9, a mamata dos ex-flanelinhas, Gilsoney e Edinho Parente, que liderou a ocupação do prédio da INSS, na rua Leovegildo Coelho, no Centro, havia um ano, acabou. Acabou não só para ele, mas também para mais de 40 famílias, que foram retirados pela Polícia Federal por força de ação de reintegração de posse expedida pela Justiça Federal.

Os invasores ou ocupantes do prédio, liderados pelos ex-flanelinhas, Gilsoney e Edinho Parente, não gostaram nenhum pouco da visita inesperada da Polícia Federal, que não deu a mínima sequer para o deputado federal, Sabino Castelo Branco (PTB), que compareceu ao local justamente no momento do bafafá.

Na rua, os ex-ocupantes do amplo e confortável prédio não tardaram em expor para a opinião pública cartazes de protesto, reivindicando direitos de cidadãos brasileiros como, por exemplo, habitação.

Não funcionou. Até o final da tarde de sexta-feira, uma única alma viva havia chegado ao local para socorrer os agora desabrigados que permaneceram na rua na esperança que pelo menos os seus pertences – geladeira, fogão, cama, cachorro, periquitos e outros – fossem colocados pelas autoridades sociais do estado ou do município em lugar.

Os mais esperançosos ainda sonhavam com a possibilidade de serem abrigados em uma das casas do Prosamim ou até mesmo em uma das quadras dos imensos GMs, centros sociais, Clube de Mães ou no Sambódromo. Vã esperança.

Já à notinha, muitos resolveram deixar o local e procurar um local para não dormir no relento. “Isso é desumano. Enquanto o governador Eduardo Braga e o prefeito Serafim Corrêa descansam confortavelmente em suas mansões, as nossas crianças, os nossos idosos e até um paralítico são obrigados a dormir na rua. Será que eles não têm coração”, indagava uma senhora bastante revoltada.

Ano passado, conforme levantou o REPÓRTER, os moradores do INSS receberam uma visita que não trouxe boas notícias. Em um mês, eles teriam que de deixar o prédio que deveria entrar em reforma. A notícia foi um choque para Edinho, que diz ter recebido permissão do ex-gerente executivo do INSS, Alexandre Caxias, preso na operação Matusalém da Polícia Federal, em abril de 2004.

Edinho e Gilsoney agiam como flanelinhas e trabalhavam como camelôs há quase 30 anos na frente do edifício. “Quando fechou, pedimos permissão para entrar e recebemos”, lembra Edinho.

Ocupantes ou inquilinos?

“Quem não tem cão, caça com gato”, diz o ditado popular, que se encaixa direitinho à esperteza de uma dupla de bóias-frias, que viu num negócio falido, no Centro de Manaus, a possibilidade de faturamento real sem nenhuma despesa e ainda fazendo trabalho de caráter social. São os irmãos, ex-flanelinhas, Gilsoney e Edinho Parente, que há quatro anos montaram um estacionamento no prédio abandonado do INSS, na Avenida Getúlio Vargas.

O negócio cresceu, e há dois anos, virou um centro comercial onde funcionam cozinhas industriais, serigrafia, bar e residências de aluguéis com preços módicos, que variam de R$ 100 a R$ 250, segundo alguns dos ocupantes.

O prédio ocupado por um órgão federal foi readaptado para o negócio. Paredes de material coletado nas ruas, do tipo compensado, cimento, divisórias, foram erguidas, como explica Edinho, para separar o que costumavam ser escritórios. Ano passado, a equipe do REPÓRTER foi recebida no segundo andar pelo vira-lata simpático do confeiteiro, Orácio Gustavo Silva, 42, que morava numa das maiores salas do prédio, que já foi do INSS, com três filhos e a esposa. Um quarto ajeitadinho com televisão, cama e sofás. A cozinha funciona nos fundos.

“Os que lavam carros me chamaram para morar aqui e disseram que não teria de pagar nada”, conta Orácio, com sotaque de peruano. Assim como Orácio, o cozinheiro Carlos Nascimento se mantém com a venda de salgados por encomenda, preparados na cozinha improvisada (em todos os sentidos) numa outra sala. “A gente trabalhava perto do garajão (edifico garagem). O rapaz de baixo (refere-se a Edinho) deixou a gente vir para cá sem pagar nada”, explica desconfiado.

Há algum tempo – lembram os moradores mais antigos –, o edifício era freqüentado por delinqüentes e viciados em drogas. Foi limpo e protegido com cadeados e pregos para receber os ocupantes.

Aluguel a preços populares

Teto solar, energia elétrica clandestinas, cozinha de azulejos, encanação adaptada. Lindomar Oliveira, 25, e a família, composta por seis membros, pagam mensalmente R$ 250 para morar num “apartamento” espaçoso, de três cômodos, havia seis meses. Sua principal ocupação é venda de churrasquinhos e cervejas, que lhes garantem alguns trocados.

Assim como ele, outras duas famílias chegaram ao prédio do INSS depois de serem despejadas de uma Vila de casas de madeiras que existia num terreno na Rua dos Andradas, ao lado do Tiro Certo. O terreno foi vendido para um empresário local, e eles, despejados.

Sarah Maquiné Gonçalves, 29 e Gidelberno de Oliveira, 47, mudaram-se há dois meses para uma pequena salinha do INSS, onde quase nada é deles. Pela geladeira, pagam mensalmente R$ 30,00 para Edinho. Com o auxílio-doença de Gidelberno, que sofreu derrame há um ano. e o lucro da venda de bombons e cigarros, o casal paga o aluguel de R$ 100.

Edinho nega que receba algo, explicando se tratar de um trabalho social dele e do sócio-irmão.

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