O Malfazejo – por Ismael Benigno

Lula no país das maravilhas

Na última quarta-feira, dia 7, o jornalista Ricardo Noblat andava espantado com o que assistia na cena política nacional. Noblat é um dos mais respeitados jornalistas políticos brasileiros e assina o blog mais acessado sobre o assunto no país. Mas estava espantado. Dois ministros do STF com quem conversou naquele dia e que lhe pediram anonimato, comentaram o que viram nos discursos de Lula em sua visita a Manaus, um dia antes. “Contrariando a lei, Lula faz campanha aberta desde já para emplacar Dilma como candidata à sua sucessão e só não vê isso quem não quer”, comentou um dos ministros.

Noblat comentou em seu artigo intitulado “Lula debocha da lei eleitoral”:

“Pelo menos até aqui, o cúmulo do deboche foi alcançado ontem, em Manaus. A certa altura do seu discurso, como tem feito por onde passa, Lula repetiu: ‘Vou eleger meu sucessor’. Aí a claque organizada, dessas que políticos costumam financiar para aplaudi-los ‘espontaneamente’, começou a berrar: ‘Dilma, Dilma, Dilma…’. Lula então se fez de inocente: ‘Esses atos estão ficando complicados para a presença do presidente, porque esses atos a gente não pode transformar eles num ato de campanha. É um ato oficial, é um ato institucional. Aqui é o lançamento e a assinatura de contratos do governo federal. Vocês viram que eu, por cuidado, não citei nomes. Vocês é que, de enxeridos, gritaram nomes aí. Eu não citei nomes’. A claque dos enxeridos voltou a berrar: ‘Dilma, Dilma, Dilma…’”

Noblat então se fez de inocente: “…o que espanta é a inércia geral – particularmente da oposição e do Ministério Público – diante de uma conduta que pode ser caracterizada como afronta às leis e aos bons costumes”.

Ricardo Noblat precisa vir mais vezes a Manaus, sentir essa cidade, seu clima festivo e sua gente alegre. Com seu calor e sua umidade, Manaus derrete o senso ético de seus visitantes da mesma forma que La Paz comprime os pulmões dos atletas que enfrentam sua altitude. O prudente comedimento do presidente em ambientes mais, digamos, ordeiros, refreia seu ímpeto populista, mas no Nordeste, e ainda mais no Amazonas, Lula pode quebrar o protocolo, afrouxar a gravata e correr pro abraço.

Noruegueses chegam a Manaus e dois dias depois estão jogando latas nas ruas. Gays italianos viram heterossexuais em 24 horas em Manaus. Potiguares sem eira nem beira chegam à rodoviária com a roupa do corpo e umas lascas de tucumã, e dias depois já são empresários de sucesso e políticos em ascenção meteórica.

“Quem rouba aqui, não sai mais daqui”, diriam os poetas de barranco de Manaus, parafraseando a máxima do jaraqui. Essa cidade tão cantada em verso e prosa por paraenses, árabes, paulistas, germânicos de Fonte Boa, mineiros e eirunepenses é única. Só nesta capital existem unanimidades rodrigueanas, tão improváveis em outros lugares.

Em Manaus se pode tudo. E tudo aqui é tudo mesmo, inclusive dedo no olho, surra na filha, cenas explícitas de crime eleitoral gravadas em vídeo, pagamento pré-pago de obras, pedofilia, programa de tevê e rádio em ano eleitoral, chantagem, suborno, ameaça e nepotismo. Coisas que até em Brasília, que já avançada e liberal como é, viram escândalo, aqui não passam de estilo de vida. Nada escandaliza, nada supreende um manauense. Manaus é a Amsterdã dos trópicos.

É isso mesmo, Ricardo. Manaus é única. Só aqui o parlamento leva o nome do presidente. Só aqui político, pra não perder a verba pública do seu time de futebol derrotado, tenta subornar o time estreante que se sagrou campeão. Só aqui, Ricardo, governador vende carro pra si mesmo, deputado fica milionário dando aula de biologia, traficante vira caçador de bandido na tevê e deputado evangélico é sanguessuga nas horas vagas.

Só aqui a prova documentada do pagamento de obras fantasmas, da contratação de fantasmas e do tráfico de influência em troca de aposentadoria ilegal é esquecida antes de virar notícia, porque o criminoso cala todo mundo. Só aqui, Ricardo, deputado gravado e exibido na Internet, comprando voto em troca de obturação dentária sai ileso por falta de provas.

Aqui, barco apreendido pela Capitania dos Portos cumpre pena em liberdade, Ricardo. Aqui as bolsas que os deputados usam, com o brasão do Estado, são piratas, Ricardo. Aqui, dono de empresa de ônibus comanda comissão de transporte, Ricardo. Só aqui, Ricardo, prefeito ladrão do interior vira samba-enredo e se acredita na história do “eu não sabia”.

Cada coisa em seu lugar, Ricardo. Pra desfrutar do sexo livre e usar drogas, vá a Amsterdã. Para apostar em jogos de azar, vá a Las Vegas. Pra debochar da lei eleitoral, venha a Manaus.

Lula não podia ter escolhido lugar melhor pra isso.

O fenômeno Agripino

Muitas piadas correram a Internet, durante a semana, sobre a confissão do travesti Andréia Albertini de que não fez sexo nem usou drogas com Ronaldo. A mais repetida era a insinuação de que o jogador teria negociado com o travesti a mudança em seu depoimento. Mas o caso sofreu uma reviravolta no meio da semana, e agora as suspeitas são de que Ronaldo negociou, na verdade, com a assessoria de José Agripino Maia.

Taí, dá jogo!

Projeto da Câmara visa instituir auxílio-funeral de R$ 16,5 mil reais à família do deputado que morrer. Arlindo Chinaglia o tirou da pauta, mas a população já começava a achar boa a idéia. Um deputado vivo custa R$ 10,2 milhões por ano. Trocar isso por uma única parcela de R$ 16,5 mil seria uma boa.

Leitores

A coluna recebeu durante a semana uma carta do leitor Rodrigo Guedes, diretor de patrimônio do DCE da UFAM. Nela, Rodrigo refuta as informações contidas no artigo “Quando vaias soam como Aplausos”. A íntegra da carta de Rodrigo está disponível no blog do Repórter (oreporter.wordpress.com). Claro, com a devida resposta.

Gênio mirim

O agricultor paranaense Sebastião de Oliveira, de 101 anos, decidiu aprender a ler aos 99. Na escola, há dois anos, e empolgado com os estudos, Sebastião promete ser aprovado, até os 108 anos de idade, nos vestibulares de todas as faculdades particulares da vizinhança de seu povoado.

O dia do caçador

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, na última quarta, projeto que prevê prisão para procuradores do Ministério Público que abrirem processo contra autoridades e pessoas comuns sem provar que não estão querendo se autopromover. Em português claro: quem pode ir para a cadeia agora é quem tenta prender criminosos. A autoria do projeto? Um tal deputado que atende por Paulo Salim Maluf.

Maracaparu

A esperança das autoridades amazonenses é que todos os desaparecidos do naufrágio do barco Comandante Sales sejam resgatados a tempo de a imprensa brasileira conseguir finalmente pronunciar corretamente o nome da cidade de Manacapuru. Convenhamos, a tarefa é bem mais simples do que dizer Itaquaquecetuba.

Mianmar, Manaus e a ética do desastre

Duas localidades remotas do planeta protagonizaram as tragédias da semana. Em Mianmar, estima-se que um ciclone tenha matado 100 mil pessoas. Em Manaus, um barco apreendido pela Capitania dos Portos afundou e matou mais de cinqüenta. As semelhanças entre as duas tragédias não ficam nos noticiários, que falam mais em números do que em rostos. Massacres africanos, colisões de trem na Índia, tsunamis na Ásia e naufrágios no Amazonas já mataram milhares. Em Mianmar, a ditadura não deixa que voluntários estrangeiros entrem para ajudar as vítimas. Em Manaus, algo parecido acontece: enquanto se contam os mortos sem rosto, o presidente, ladeado pelo ministro dos Transportes e pelo governador que ama o interior, é recebido com festa pelos sobreviventes.

Entrevista da semana

A coluna vai entrevistar todos os possíveis candidatos à Prefeitura este ano. O primeiro entrevistado é Francisco Praciano, deputado federal pelo PT. Cearense de São Bento de Amontada, casado e pai de dois filhos, Praciano foi vereador quatro vezes e conversou com a coluna por telefone. Veja a entrevista:

Deputado Praciano, o senhor responde a algum processo na Justiça, por suspeita de irregularidades no exercício dos cargos públicos que exerceu?

Não.

Ok, obrigado, deputado.

Para sugerir temas, fazer críticas e comentar o que você lê nesta coluna, escreva para ismaelbneto@gmail.com ou acesse omalfazejo2.wordpress.com

2 responses to “O Malfazejo – por Ismael Benigno

  1. oreporter

    O jornal Repórter publica carta enviada pelo leitor Rodrigo Guedes, comentando o texto “Quando vaias soam como aplausos”, publicada na semana passada. A seguir, a íntegra da carta:

    Preso há mais de vinte minutos em um congestionamento que se iniciava antes da passagem de nível da darcy vargas com constantino nery, passando por baixo do novo viaduto Miguel Arraes, entediado pela espera provocada pelo caos no transito de Manaus, resolvi pegar minha edição n 62 do JORNAL REPORTER e ler um pouquinho sobre o que estava acontecendo por aqui.
    Andando lentamente no engarrafamento no qual fiquei aproximadamente uma hora até chegar na Universidade Federal do Amazonas li uma coluna deste semanário e fiquei estarrecido ao ver o colunista defendendo veementemente o Prefeito da cidade da mesma forma cega que o Hiel Levy faz com o governador Dudu Braga, com a única diferença (ou não) que o útlimo é pago justamente pra fazer isso.
    Ao ver o citado colunista falando de Manaus do mesmo jeito que a propaganda municipal(ou eleitoral) faz, como se Manaus fosse a suíça, a paris dos trópicos, a viena abaixo da linha do equador, perguntei-me se tal colunista realmente morava nessa Manaos pra falar de tal maneira ou era daqueles que residem em outros estados e escrevem pra cá.Refleti também qual seria o motivo que o colunista da pagina 16 literalmente rasgava qualquer resquício de imparcialidade pra ovacionar o prefeito mais vaiado dos últimos tempos.
    Será se o colunista não sabe(o que eu não creio), esqueceu ou por vontade própria, ao escrever se nega a lembrar os inúmeros problemas que levaram o Prefeito a poucos meses da eleição a ter quase 60 por cento de rejeição do eleitorado local?
    Pois bem, eu, como um mero cidadão indignado, no pleno exercício dos meus direitos não esqueci e lembrarei ao colunista o retrato atual da cidade, pois quem lê, se não morasse aqui pensaria que é o melhor prefeito da historia do país.

    Caro colunista, ao cega e parcialmente defender o Sarafa, esqueceste de citar o uso descarado, presenciado e denunciado por um próprio secretario, da máquina pública pra eleger o filho do Prefeito a deputado Federal, rasgando a imagem ética que o alcaide sempre se orgulhou de possuir.

    Não sei se moras e transita somente na avenida do Turismo (uma das, talvez, cinco ruas da cidade que o asfalto ainda presta) pra não citar que a cidade foi tomada em todas as ruas de todas as zonas pelos ex-buracos, hoje crateras e pelos mondrogos e que hoje Manaus ta mais parecendo a capital da lua do que do Amazonas.
    Lembra-te das promessas de campanha de resolver a questão do transporte coletivo em 100 dias, de construir 4 creches e três viadutos(só um foi feito), de restaurar o centro histórico, de realizar concurso pra 6 mil servidores administrativos e de resolver o problema dos camelôs, todas não cumpridas, se igualando o Prefeito a todos os outros que prometem e não cumprem?

    E o que falar do inchamento e loteamento da administração municipal a partidos políticos, criando diversas secretarias só para alojar aliados políticos, torrando por mês cerca de um milhão de reais só com o pagamento de secretários e subsecretários que mal saem do gabinete, gerando despesa de mais de 50 milhões nos quatro anos de gestão, como foi denunciado aqui no jornal reporter ?

    Por acaso andas de ônibus pra ficar esperando debaixo do sol (vários pontos sem cobertura) quase uma hora ou mais a linha passar e depois entrar em um ônibus velho, caindo aos pedaços, sujo e lotado, com gente pendurada quase que totalmente fora do veículo, mesmo pagando uma das passagens mais caras do país? Não acompanhaste nos jornais a averiguação de que existem ônibus com aquela inscrição “500 onibus novos” sendo de 1990?
    Não vê diariamente a população com suas casas alagadas a cada chuva que cai e a Prefeitura nada fazer pra mudar esse quadro ?
    Citas a transparência na internet mas esqueces de citar também que pode ser visto pelo mesmo meio que a Prefeitura hoje possui orçamento de quase 2 bilhões de reais por ano, mais do que o dobro do que os dois últimos prefeitos possuíram e não fez quase nada tendo em vista a gama de possibilidades de que possui. Da próxima vez, critique, por favor, o gasto de quase 25 milhões só em Propaganda.
    O prefeito não trabalhou praticamente 2 anos sob alegação de que a administração anterior deixou 60 milhoes em dividas mas tal colunista não comenta ainda, que mesmo tendo esse orçamento estupendo, o atual solicitou quase 800 milhões em empréstimos na Câmara pra deixar de dividas pro próximo prefeito que muito provavelmente não será ele .
    Ainda na questão ética, por que não citaste as escolas fantasmas pagas nessa gestão, o crime de prevaricação de não denunciar corrupcao ocorrida na administração passada só por questões políticas pelo fato de o ex-prefeito te-lo apoiado, o caso da merenda escolar superfaturada e vencida, a compra de brinquedos no valor de 8 milhões e o asfalto superfaturados, o assistencialismo puro de distribuir quase 17 mil ranchos em ano eleitoral?
    Há algo de errado na sua visão caro amigo colunista, não que o Prefeito não tenha os seus méritos e a sua administração tenha sido só erros, mas tal gestor não teria tamanha rejeição se o povo e a cidade estivessem bem. Paremos com essa mania louca de teoria da conspiração de que todos estão contra o Sarafa por que ele “não roubou nem deixou roubar”. Achas mesmo que a população gosta de sofrer, a ponto de dizer que mesmo sendo uma ótima gestão, o Prefeito é ruim?
    Não caro colega, a rejeição fenomenal e os menos de dez por cento das intenções de voto que o Prefeito possui são só um retrato do que Manaus está passando.

    Rodrigo Guedes
    Diretor de Patrimônio – DCE/UFAM

  2. oreporter

    A seguir, Ismael Benigno, o autor da coluna O Malfazejo, responde à carta de Rodrigo Guedes:

    Caro diretor de patrimônio do DCE da UFAM, algumas respostas às suas perguntas: sou amazonense, nasci em Manaus, não sou pago pra defender o prefeito e não sou jornalista, portanto, não tenho qualquer obrigação com a imparcialidade que vemos tão clara e firme nas colunas dos jornalistas profissionais de Manaus. São estes os mesmos jornalistas que nos lembram, a mim e a você, a rejeição recorde de que desfruta Serafim Corrêa. Mas aí há um porém: colecionei testemunhos de que deixei bem claro que estou pouco me lixando para a rejeição do prefeito. Não tenho filiação partidária, não defendo bandeiras políticas nem possuo pretensões políticas, como ocorre com os integrantes do DCE da UFAM, os meninos do Juventude Democratas. Portanto, estou prazerosamente desobrigado de seguir a cabeça do tal eleitorado de Manaus. Recebi também testemunhos de que deixei claro que não faço campanha a favor do prefeito, e sim que fazia campanha contra os deputados estaduais amazonenses. Eles são o meu norte. Se eles dizem, por exemplo, que Fulano é um grande homem, eu vou imediatamente procurar os processos que este cidadão responde na Justiça. Se eles dizem que Beltrano é um desbundado, eu imediatamente crio simpatia pelo Beltrano. É assim, bem simples.

    Caro diretor de patrimônio do DCE da UFAM, eu enfrento os mesmos engarrafamentos que você. Acho até que você foi bondoso em falar de 20 minutos, porque eu enfrento 30, 40 às vezes (com o perdão do número cabalístico). O viaduto Miguel Arraes está entregue, e antes dele você e eu enfrentávamos um trânsito bem pior naquela área. Os engarrafamentos na Darcy Vargas se devem ao retorno de quem entrava no Conjunto Eldorado e de quem seguia em direção ao Parque Dez. Os outros dois estão em construção, infelizmente pra muita gente. Um deles é a passagem de nível da Paraíba, hoje Umberto Calderaro. A renovação da frota de ônibus continua sendo feita, e se há defeitos no serviço – e há muitos, e por eles a administração precisa responder –, é porque falta de fiscalização ostensiva, punição a empresários criminosos, punição a falsificadores de carteiras PassaFácil e a servidores rodoviários criminosos. Uma boa dica é o blog Fiscais do IMTU, um espaço que já trouxe denúncias bem mais graves sobre o modus operandi dos empresários do setor do que simplesmente a balela dos “ônibus velhos”.

    Sim, lembro das promessas do prefeito, porque lembro das promessas das pessoas em quem voto. Resolver o problema dos ônibus em 100 dias foi ingenuidade do candidato Serafim, especialmente a quem se propunha essa missão sem se submeter aos empresários do setor, mas a frota está sendo renovada, e depois do caso do ônibus de 1990 com pintura nova, foi provado que a denúncia não era verdadeira. Nas entregas seguintes, o secretário de Transportes Urbanos apresentava o número do chassis de cada veículo. Eu consultei o portal da Prefeitura e soube que os trabalhos de revitalização do Centro Histórico estão sendo tocados. Devagar, concordemos, mas tocados. Convênios com o Governo Federal visam restaurar a Praça da Matriz, a praça no entorno do chafariz e recuperação do Pavilhão Universal, na Praça Tenreiro Aranha, nas proximidades do Hotel Amazonas.

    Você conhece o programa Monumenta, do Governo Federal? Técnicos responsáveis por ele visitaram todas as obras em andamento no Centro Antigo, como as casinhas da rua Bernardo Ramos, o chafariz da Praça Dom Pedro e o Mercado Adolpho Lisboa. Em março de 2006 a Prefeitura passou a disponibilizar linhas de crédito para financiamento de reformas de fachadas de imóveis do Centro Histórico. O Antigo prédio da SHAM, na Praça da Saudade, foi finalmente demolido, e a praça vai começar a ser restaurada. Podíamos também falar dos parques dos Bilhares, da Lagoa do Japiim e do Encontro das Águas, este último sim, seriamente ameaçado de não virar realidade nesta administração — ou, como diria um demagogo, “seriamente ameaçado de não virar realidade se o Prefeito não puder continuar o trabalho que vem fazendo”.

    Mas falemos de um dos prefeitos anteriores. Carijó, o prefeito tampão que formou os chamados grupos de trabalho para tocar campanhas políticas, criou nada menos que 3.200 cargos comissionados na Prefeitura de Manaus. Alfredo Nascimento, quase 3 mil. Serafim, com o tal inchaço da máquina de que você fala, reduziu esse número para 1.400. A Prefeitura, e isto não é invenção da administração Serafim Corrêa, gasta milhões de reais anuais na limpeza dos igarapés. Nos dois primeiros meses deste ano, o serviço aumentou em 66%, e cursos d’água limpos por equipes de até 250 homens, além de máquinas escavadeiras, balsas e caçambas, voltam a ficar poluídos em poucas semanas. Os moradores das áreas de risco afogam-se no próprio lixo, que despejam pela janela de casa. Há outros pontos históricos de alagamento na cidade, e para estes é mesmo preciso projeto da Prefeitura. Acredite, caro diretor de patrimônio do DCE da UFAM, se a Prefeitura não tivesse contido, em três anos, mais de 100 princípios de invasão, Manaus iria precisar de um Prosamim 27 vezes maior do que o atual. Não que o Governo do consórcio Amazonino-Braga-Alfredo-ETAM-Pampulha não fosse gostar disto, claro, afinal, Prosamim só vinga se houver invasor. Amazonino, o pai de Eduardo, preparou o terreno para o filho, incentivando as dezenas de invasões que geraram o quadro atual de colapso social – e banquete eleitoral.

    Eu não sabia que a Prefeitura gastava R$ 25 milhões em propaganda, mas vou acreditar em você pela envergadura do seu cargo no DCE. Você já viu uma propaganda da Prefeitura? Notou que ela falava das obras, das conquistas e das realizações da Prefeitura, e não do Prefeito? Você viu o prefeito de cachecol pelas ruas de Paris em alguma propaganda? Algum procurador geral de justiça fazendo figuração para o Prefeito? Alguma cena de obra comprovadamente fantasma, feita às pressas depois de denunciada? Enfim, você viu o Prefeito se autopromovendo, nem que fosse disfarçado num “S” estilizado, em alguma peça de propaganda? Se a sua lógica estiver correta e o Prefeito ostenta 60% de rejeição do nosso esclarecido eleitorado, os R$ 25 milhões foram muito pouco.

    O prefeito trabalhou desde o primeiro dia de mandato, caro Diretor de Patrimônio do DCE. É que há políticos que preferem a propaganda enganosa, e outros que escolhem o caminho mais estreito e espinhoso, como o da desburocratização da máquina. Serafim realizou uma reforma administrativa, tornou a Prefeitura mais eficiente. Hoje você, por exemplo, pode emitir uma nota fiscal eletrônica para algum serviço que o DCE da UFAM tenha prestado ao DEM. Basta entrar no site da Prefeitura. Hoje você paga e consulta seus tributos (ISS, IPTU, Alvará) pela internet, sem precisar pegar fila. Hoje você, se fosse servidor do município, teria o Manausmed (o antigo Impas em sua versão que funciona) à disposição. Se você fosse aposentado ou pensionista do município, teria hoje a segurança de ver seu pedido de aposentadoria aprovado em 22 dias. É que esta administração “inventou” o órgão público com ISO-9000. O Manausprev tem. Sabe quanto tempo levava na época em que Manaus era feliz, com Amazonino, Eduardo, Carijó e Alfredo? Um ano.

    Rodrigo, você concorda comigo que, num cenário em que o prefeito é tão odiado pela maioria da população, possíveis fraudes em licitações de merenda e brinquedos virariam um escândalo com respaldo popular até para o impeachment? Por que isso não acontece? Eu arrisco uma resposta: é porque não houve fraude. Estão aí as duas ferramentas para que você e eu comprovemos isto, o Diário Oficial do Município, onde a administração revela tudo o que faz, e a imprensa local, notoriamente imbuída do mais nobre espírito público, sempre pronta a denunciar toda e qualquer malversação de dinheiro público, doa a quem doer. Convenhamos, Diretor de Patrimônio do DCE da UFAM, o serviço é mais fácil do que tirar doce de boca de criança: derrubar um prefeito impopular, que revela suas roubalheiras no Diário Oficial e que conta com uma oposição feroz, aguerrida e bem intencionada, formada por Sabino Castelo Branco, Chico Preto, Wallace Souza e Marcos Rotta, todos coincidentemente divididos entre programas de exploração da miséria e seus mandatos, nem sempre conseguidos com o voto do povo, como no caso de Chico Preto.

    Me perdoe o texto longo. Resumi o máximo que pude, e tentei não torná-lo maçante. Confio em que você realmente quisesse respostas às suas perguntas, afinal, você não é deputado estadual governista (ainda não). Alguns pontos ficaram sem resposta, porque não sou a pessoa mais indicada para defender a Prefeitura. Visite o portal da Prefeitura, consulte o link Transparência, leia o Diário Oficial. Faça melhor, aliás: cobre da Prefeitura a solução para os problemas da cidade, investigue a aplicação dos recursos, não fique esperando que um jornal chapa-branca lhe dê discursos mastigados, baseados em críticas que não duram duas edições de jornal.

    Mas vou avisando, caro Diretor de Patrimônio do DCE da UFAM, a leitura será tediosa. A Prefeitura, que segundo você e os institutos de pesquisa apócrifos da cidade vai sair das mãos de Serafim no fim do ano, se transformou numa Prefeitura chata, racional, sem grandes foguetórios, sem muitos factóides e sem slogans pegajosos. Simplesmente porque Serafim fez uma escolha: fazer o certo, ainda que a cidade finja não querer isso. Houve poucos assim, e as carreiras dos administradores não duraram muito na política brasileira. Paciência. Talvez seja uma ideologia, esta. Acreditar que, talvez pelo cansaço ou pelas futuras gerações que vão ter os benefícios, a população de Manaus um dia se renderá aos que a amam, mas que não amam sua pobreza, sua demagogia, seu populismo de barranco e sua cafajestice arraigada.

    Manaus não merece. Eu quero acreditar nisso.

    Um abraço, Rodrigo.

    Ismael

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