Permita-se sentir dor – por Jorge Laborda

No Japão não é comum e nem educado sofrer a morte de um familiar. É feio chorar num funeral. Deve-se sentir que isso é um alívio, um orgulho, e muitas outras culturas semeiam a mesma linha de pensamento. Perda não deve ser chorada, e sim celebrada.

Mas por que será que a gente sofre tanto quando perde alguém ou alguma coisa?

Faz uns dois meses que vejo uma faixa espalhada por essa cidade com os seguintes dizeres: “Procuro desesperadamente um poodle branco”, com a palavra “desesperadamente” escrita em outra cor, para dar uma noção real das emoções de quem perdeu.

Por que muitas pessoas choram quando perdem o emprego que era a única garantia na vida? Depois de despedido, tem homem que bebe até cair, e isso sempre termina em choro. E choro de homem é tão triste, tão sentido, do fundo mesmo. E mulher, nem se fala. Chora até dormir inchada e acordar com os olhos escondidos em alguma dobra do rosto. É um outro tipo de perda.

Conheci uma moça-mulher que eu tenho certeza seria uma grande amiga por uma vida inteira, mas só o fomos por três curtos meses. Parecia um encontro de almas, uma irmã de outra mãe, um ganho. O grande problema é que pertencíamos a dois mundos totalmente distintos e não pudemos largar uma vida por uma amizade. Não nesse caso, em que não tínhamos construído nada na vida e os sonhos precisam de uma certeza de que vão virar realidade. O resultado é que nossas realidades eram diferentes, e o meu ganho hoje é uma perda.

Quantos filmes água-com-açúcar tipo “Outono em Nova York”, “Cidade dos Anjos” ou “Um amor para recordar” contam a história de uma pessoa que se entregou a outra, sabendo que havia uma doença terminal no meio do caminho, e que o caminho seria muito curto? Parece clichê, mas a gente chora mesmo assim. É uma perda.

Tem gente que tenta consolar, dizendo: “um dia vocês vão se ver de novo”, “não fica assim, isso vai passar”, “você precisa ser forte para os seus filhos”, “foi melhor assim”, “não perca as esperanças”, “não deixe a tristeza tomar conta de você”… e mais um monte de frases que não anestesiam.

Todo dia perde-se um cachorro, um emprego, um companheiro de uma vida toda ou de um começo de vida, uma amiga muito querida, um passarinho, um peixinho que amanhece boiando, uma tartaruga que finalmente diz adeus, um objeto que se quebra e era guardador de tantas memórias. Todo dia perde-se alguma coisa. Perde-se alguém.

O importante é dar espaço para a dor. Deixar-se passar dois dias na cama, devorando bacias de brigadeiro, revirando fotos, revivendo momentos em solidão e, acima de tudo, derramando lágrimas amargas. Permita-se chorar, porque é a maneira de amaciar um pouquinho uma pancada de pedra, um dedo no olho.

É também de extrema necessidade que se saiba o momento em que a tristeza é suficiente. O minuto em que as lágrimas precisam secar, senão todo o esforço em permitir-se viver uma emoção forte transforma-se em comodidade e depressão. Sempre há alguém que depende de mim, que depende de você. Não é?

No mais, ficar na dor é comodidade.

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