Procura-se uma família

Neste mês em que se comemora o “Dia da Adoção”, quase 300 meninos e meninas, segundo a coordenadora do serviço social do Juizado da Infância e da Juventude, Heloisa Guimarães de Andrade, esperam por adoção nos abrigos de Manaus. Desse total, apenas 16 crianças e adolescentes estão aptos e disponíveis para ser adotados. São crianças brancas, caboclas, pardas com idade entre 3 e 15 anos que estão à espera de uma família.

O plano é diminuir o desencontro que existe entre 82 casais que querem adotar e uma quantidade menor, mas ainda numerosa, de crianças que aguardam uma nova família. Nos arquivos do juizado, cerca de 60 casais do Amazonas, 16 de outros estados e 7 estrangeiros estão na fila para adotar uma criança em Manaus.

Essas crianças estão espalhadas em quatro abrigos: Janael Doylle, Monte Salém, Moacir Alves e nas Aldeias S.O.S, este último mantém crianças e adolescentes.

O principal motivo desse desencontro é a diferença entre as preferências dos pais e as crianças que estão disponíveis nos abrigos. Os números não são oficiais, mas segundo Heloisa, enquanto grande parte das pessoas deseja adotar só um filho (99%), menor de três anos (83%), a maioria dos abrigados tem idade superior a 5 anos (80%) e possui grupo de irmãos (45%).

“São crianças que vão ficando porque não estão dentro dos padrões exigidos pelos futuros pais”, revela Heloisa. Assim, os abrigados chegam à idade adulta à espera de pais adotivos que nunca vão chegar. “Muitos já estão trabalhando e morando nos abrigos”, conta.

O problema

O sonho de toda criança órfã ou abandonada é ter uma família, direito garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. E não são poucas as pessoas que se envolvem em longos processos de adoção para constituir uma família. “Além dos processos demorados da justiça frente às adoções, existem os problemas apresentados pela própria criança que, não muito raro, transformam a adoção em ato heróico e de amor resignado”, observa Heloisa.

Ela conta a história de uma menina paraense que foi adotada aos três anos de idade por uma brasileira casada com um estrangeiro. A adoção não passou pelo juizado, a criança foi registrada diretamente como sendo filha do casal que a levou para o interior do Estado. A mãe morreu e a criança ficou aos cuidados do pai que se casou novamente. A criança começou sofrer maus-tratos por parte da madrasta e seguidos abusos sexuais por parte do pai. Até mesmo um menor de 11 anos, enteado do pai abusava da menina que foi retirada dessa convivência pelo Conselho Tutelar e colocada em um abrigo em Manaus.

A menina já passou por duas adoções e em todas apresentou comportamento que indica a dependência de relação sexual. Hoje, a menina está com 8 anos de idade e passa pela terceira casa adotiva, que segundo Heloisa, pode ser a última. “Acredito que dessa vez vamos dar um final feliz para essa triste história”. A menina foi adotada por uma estrangeira que a ama e quer ajudá-la. “Ela sabe de todos os problemas e está enfrentando tudo para salvar essa criança”, conta.

Deixados para trás

Outro ponto que dificulta a adoção é o perfil familiar da criança. Muitas vezes ela é filha de dependentes químicos e já nasce com a dependência no sangue, apresentando tremedeiras ou alguma deficiência mental ou física o que as transforma em crianças que ninguém quer.

Heloisa fala que os candidatos a pais preferem crianças bonitas e saudáveis e nos abrigos, esse perfil acaba sendo raro entre as crianças que estão disponíveis. “Tem um menino que está abrigado há dez anos e não consegue ser adotado; acredito que por ter deficiência, embora leve, pois se trata de um menino maravilhoso, mas que não tem a chance de mostrar isso por não ter uma boa aparência”.

Além disso, há os que são soropositivos, doentes e os que possuem outros irmãos. “Muitos deixam de ser adotados para não serem separados, mas há casos de pais que adotam todos os irmãos o que é muito raro, mas existe”.

Entregas extrajudiciais

Atualmente, os processos de adoção demoram em média seis meses. Entretanto, esse tempo pode variar de acordo com o juiz responsável em cada caso. “As pessoas que desejam adotar uma criança devem passar por várias etapas no processo, inclusive, o cadastramento e a avaliação de suas condições emocionais e materiais”, explica Heloisa. Em geral, somente após a aprovação de cadastro, os candidatos escolhem uma criança. A próxima etapa será verificar a afinidade entre as duas partes, uma das últimas fases do processo. Hoje, oito crianças estão em estágio de convivência.

A assistente social conta que são comuns casos de pessoas que vivem com filhos de criação há algum tempo e não oficializam a adoção por acreditar que podem ser separados pela Justiça. Mas essas situações são avaliadas com critérios especiais e a legalização tende a trazer benefícios principalmente para as crianças. “O medo procede, pois se a criança tratar-se de um bebê e a convivência for recente, de fato o juiz a retira e a coloca em abrigos; mas se a convivência já estiver há mais de seis meses, o procedimento muda”, explica.

Outro fato que segundo Heloisa é importante explicar é o caso de mães que preferem abandonar seus filhos em locais inóspitos como lixeiras, ruas, buracos, hospitais ou a pessoas desconhecidas a entregá-los no Juizado por medo da Justiça obrigá-las a ficar com as crianças. “Isso não acontece. O que vamos fazer é tentar alternativas para a criança como um parente próximo e até orientar a mãe que muitas vezes passa por uma situação passageira de stress”.

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