Vassouras para mudar o mundo

O projeto é apoiado pela Cáritas, Pastoral do Menor e Movimento Comunidade Vida e Esperança da Igreja Católica, pelas organizações não-governamentais Gruponi.

As máquinas podem substituir a mão-de-obra humana, mas nunca uma grande idéia. Há três anos, um grupo de educadores da Pastoral do Menor da Igreja Católica em Manaus, lançou aos adolescentes o desafio de construir vassouras com garrafas de plástico. De maneira bem artesanal, cortando garrafas de pet com tesouras, eles nem esperavam que o trabalho ganhasse força e pudesse se transformar numa pequena fábrica, a Cooperativa Vassoura de Pet (Vapet), no bairro Novo Israel, zona norte de Manaus.
Os adolescentes cresceram, mas o projeto continuou, gerando emprego, mudando vidas e salvando o planeta. Atualmente, existem quinze cooperados, entre homens e mulheres, maioria desempregada há meses. A cozinheira industrial Maria de Fátima Barbosa, 51, descartada por uma das empresas da Zona Franca de Manaus em razão da idade, vivia de “fazer milagres há dois anos”, antes de entrar na cooperativa há três meses.
Trata-se de uma cooperativa que pratica a economia solidária, uma alternativa pós-capitalista às regras do mercado que resulta em diversas práticas de comércio justo, sistemas de intercâmbio local, autogestão, finança ética e consumo solidário. Na Vapet, trabalham-se oito horas diariamente e repartem-se os lucros às sextas-feiras, depois do expediente.
O projeto é apoiado pela Cáritas, Pastoral do Menor e Movimento Comunidade Vida e Esperança da Igreja Católica, pelas organizações não-governamentais Gruponi, de missionários italianos e Visão Mundial.

Vassouras ecológicas

Garrafas pet, que tinham o lixo ou os igarapés como destino, em alguns minutos, transformam-se em vassouras de longa duração. Num mundo de descartáveis, produtos de boa qualidade podem parecer pouco rentáveis, mas é exatamente este o segredo do negócio solidário: meio ambiente e consumidores satisfeitos. A dona de casa Marli Castro, 30, utiliza a mesma vassoura ecológica por mais de um ano: “Uso tanto fora quanto dentro de casa. O bom é que basta lavar e está pronta para ser usada novamente”, testemunhou acrescentando que antes comprava vassouras a cada dois meses.

Etapas da fabricação

Com apoio do Conselho Estadual de Desenvolvimento Humano (CDH), os cooperados trocaram as tesouras por seis máquinas. Mas o trabalho continua exigindo bastante organização. Primeiro é realizada a limpeza do material. Uma equipe retira os rótulos e tampas das garrafas. Outro grupo retira o fundo do produto. A máquina participa apenas da etapa final, quando os pets são transformados em tiras plásticas que depois serão amarradas para a confecção das vassouras. O produto padrão é vendido ao preço de R$ 2,70 a unidade. A equipe fabrica vassouras também para garis.

Falta matéria-prima

Apesar de diariamente serem descartados na natureza milhares de garrafas pets, o principal problema dos cooperados é a falta de matéria-prima, que reflete na renda da semana. “Se não faltassem pets por mês, os cooperados conseguiriam até um salário mínimo por mês”, garante a coordenadora dos trabalhos, Lúcia Obando, 41. Para a fabricação de uma vassoura são utilizadas vinte garrafas de plástico; logo o estoque de garrafas que chega diariamente – em média de 300 kg – dura apenas dois dias. Mesmo que existam 140 catadores cadastrados pela Cáritas em toda a capital, doações são essenciais para a continuidade dos trabalhos (ver box com endereços).
Mas quando falta matéria-prima, o grupo não fica de braços cruzados: recolhe pets nas casas e mercados do bairro ou organiza gincanas com a comunidade para juntar o material reciclável.

“O segredo é ser persistente”

Há quatro meses, a vida da cooperada Jeovanna Souza, 35, começou a mudar. Ela estava desempregada há mais de dois anos e precisava sustentar seis filhos. Com estudos incompletos, Jeovanna tinha dificuldades de conseguir empregos formais. Por isso ganhava a vida como diarista até entrar na cooperativa por meio do padre da área missionária do bairro onde mora, Terra Nova 3. Terminou os estudos, e agora prepara-se para a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que pode garantir um lugar em uma universidade. “O segredo é ser persistente. Estou me esforçando para servir de exemplo a meus filhos, para que eles se inspirem em mim”, contou Jeovana, emocionada.

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