PAM da Codajás faz o que pode

Com apenas 139 médicos disponíveis e 25 especialidades, o PAM da Cachoeirinha atende a uma demanda de mais de 6 mil usuários do SUS por dia

As filas estão lá desde o início da noite e varam pela madrugada. Independentemente da idade das pessoas, elas são disputadas todos os dias, principalmente, pelos mais necessitados, a maioria doentes, paupérrimos, desesperados, famintos, suarentos, muitas vezes respingados de lama, deitados ou sentados nas escadarias ou calçadas imundas e exalando fétido odor de excrementos de animais.
Quando chove, tudo se complica, pois elas se espremem nas poucas marquises existentes, tentando abrigar-se. Uma ou outra dessas pessoas – talvez as mais afortunadas – tomam um cafezinho ou um copo de mingau pra enganar a fome e espantar o sono. Outras se cobrem com jornais, encostam as cabeças nas paredes e tentam dormir para não perder o lugar na fila ou na hora em que os portões são abertos, às seis horas da manhã.
Sacrifício atroz e nem sempre recompensado. No balcão de atendimento, todo esse sacrifício pode terminar em frustração, seguida por um rude “não”, proferido por uma funcionária em geral, mal-humorada. E inúmeros desses humildes e desvalidos cidadãos retornam aos seus lares mais doentes e decepcionados do que quando iniciaram a jornada aqui descrita.
Não, nada disso tem a ver com as barbáries dos campos de concentração nazistas ou de uma roda de literatos discutindo o Inferno de Dante! Muito menos de uma dessas seitas apocalípticas a bradar o fim do mundo. Tudo isso, infelizmente, está relacionado a Manaus, ao sistema de saúde do Estado, que em período eleitoral é defendido por um senhor grisalho, impostado, irônico, que aparece nos programas oficiais de televisão para dizer que tudo vai muito bem obrigado.
Nada disso, nada vai tudo muito bem obrigado, sobretudo, com o Sistema Único de Saúde (SUS), cantado em verso e prosa pelo presidente Lula, defendido pelo governador Eduardo Braga, incentivado pelos demais políticos do pedaço e ignorado pelo “operoso” Ministério Público.

Sem opção

Contrariando tudo o que é dito pela propaganda oficial, as filas no PAM da Codajás, que hoje é chamado de Policlínica, continuam intermináveis com acentuada falta de especialistas sem perspectivas de mudança.
Na semana passada, por exemplo, uma trabalhadora diarista, com 50 anos de idade, revelou o drama vivido por ela durante uma madrugada, do lado de fora do PAM, na expectativa de um atendimento médico. Praticamente dominada pelo cansaço e pela fadiga de uma noite acordada, a diarista foi atendida, mas a tomografia prescrita, só seria realizada no início de junho. Por quê? A cota de atendimento do SUS “estava esgotada”.
Sem opção, a diarista teve de se conformar e encarar outra situação não menos agradável que a longa espera, para realizar um exame que pode ser decisivo para a vida dela. Informada por uma médica endocrinologista de que teria um tumor em dos seios, a diarista procurou com o devido encaminhamento um ginecologista que, segundo informou, não quis se comprometer em diagnosticá-la.
Como se fosse uma bola de pingue-pongue, ela foi encaminhada, novamente, para o especialista que solicitou a tomografia para, posteriormente, ser examinada por um mastologista, que por sua vez, só poderá dizer se a mulher tem câncer ou não se estiver de posse do resultado do tal exame.
Porém, o problema maior foi que a bendita tomografia não foi autorizada pelo SUS, apesar do caso de dona Maria ser grave! Mas por que o SUS não atende?

Diretora pede desculpas pelos transtornos

Ao procurar na manhã de quarta-feira a direção do PAM, considerado referência regional no âmbito das consultas especializadas, a enfermeira-chefe Joselita Nobre, não contestou as reclamações da diarista, mas fez questão de esclarecer que todas as marcações de consultas podem ser realizadas “facilmente” pelos clientes do SUS através do telefone 0800-280-8444 e que tais consultas só não ocorrem se não houver médico na especialidade desejada.
Apesar das argumentações da diretora Joselita, ela prontificou-se em ajudar a diarista (e ajudou), mas revelou que, sob suas ordens, encontram-se 139 médicos disponíveis para atender a uma demanda de 25 especialidades. Com eles, existem 23 enfermeiras responsáveis pela programação e supervisão do atendimento clínico. Além deles, existem outros auxiliares e funcionários, como os PAM Centro, na Avenida Getúlio Vargas, fechado e demolido há cerca de oito anos e até agora ainda não reativado.
Joselita acrescentou, ainda, que a demanda diária do PAM é de 6 mil pessoas somente na área de prevenção. “Fazemos o melhor que podemos, mas às vezes ocorrem falhas no sistema, como a recente greve que afetou 45% dos funcionários da Susam”.
Além das especialidades, Joselita Nobre informou, também, que até os casos de dengue passam pelo PAM que se encarrega de fazer o encaminhamento para o Hospital de Doenças Tropicais. “Apesar de fazermos a nossa parte, muitas vezes erramos. Pedimos desculpas por isso”.

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